Militares argentinos poderiam revelar covas

Segundo torturador Ernesto Barreiro, outros oficiais estariam dispostos a localizar - como ele fez - os restos mortais de vítimas da 'guerra suja'

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2014 | 02h02

O ex-major e torturador da "guerra suja" Ernesto Guillermo Barreiro afirmou ontem que outros oficiais estariam dispostos a falar, propiciando mais dados sobre o paradeiro dos restos mortais de vítimas da ditadura.

Barreiro nesta semana quebrou o pacto de silêncio dos ex-integrantes da ditadura argentina (1976-1983) ao revelar durante seu julgamento informações sobre a suposta localização dos corpos enterrados de 25 pessoas desaparecidas durante o regime militar.

Nos organismos de defesa dos direitos humanos existe expectativa pelos depoimentos de outros torturadores na semana que vem, entre eles José Hugo Herrera, Luis Manzanelli e Héctor Romero, que haviam integrado a equipe de Barreiro no período de repressão militar nos anos 70.

Barreiro, sempre vestido impecavelmente nas sessões do julgamento na cidade de Córdoba, afirmou que era "apenas um funcionário de inteligência" e não esteve envolvido em assassinatos.

"Eu era uma peça do sistema", disse o torturador, que nas sessões nos tribunais defendeu a ditadura argentina.

O ex-major - que havia fugido da Argentina para os Estados Unidos, de onde foi extraditado em 2007 - acusa o general Cristino Nicolaides, um dos líderes da ditadura, de ter ordenado no fim do regime, em 1983, a destruição dos documentos sobre "a luta contra os subversivos". Segundo Barreiro, a eliminação desses papéis tornou difícil aos subalternos provar sua "inocência".

Até ontem (sexta-feira) à noite as equipes de antropólogos que buscavam os corpos nos locais indicados por Barreiro não haviam encontrado restos mortais.

Barreiro explicou que parte dos assassinatos dos desaparecidos enterrados em La Perla ocorreu antes do golpe militar de 1976, quando governava a presidente civil Isabelita Perón (1974-1976), viúva do presidente Juan Domingo Perón.

Na época surgiram diversos grupos paramilitares que sequestravam e assassinavam políticos, intelectuais e militantes da oposição.

Um dos grupos, a "Tríplice A", criada em 1973 estava diretamente organizado pelo governo Perón, já que era liderado pelo braço direito da presidente Isabelita, o ministro da Ação Social José López Rega.

Massacre. A organização do ministro - que também havia sido o astrólogo do casal Perón - teria assassinado mais de 700 pessoas em seus três anos de existência.

A repressão no período do casal Perón é assunto tabu no governo de Cristina Kirchner, integrante do partido peronista. Em diversas ocasiões partidos da oposição pediram a extradição de Isabelita, que reside na Espanha. No entanto, a Justiça de Madri rejeitou os pedidos.

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