Militares britânicos poderão ´vender´ histórias de cativeiro

Os 15 militares britânicos que ficaram presos no Irã por quase duas semanas foram autorizados pelo Ministério da Defesa da Grã-Bretanha a vender suas histórias para a imprensa.Segundo o Ministério, "circunstâncias especiais" na experiência dos cativos permitiriam levantar a proibição que existe em relação a este tipo de atividade.Os militares, que regressaram a Londres e fizeram sua coletiva de imprensa em meio a um grande estardalhaço da mídia, dizem ter sido vendados e isolados nos 13 dias em que passaram em cativeiro.Após a coletiva, o governo iraniano acusou os ex-prisioneiros de fazer "propaganda" e "encenação". Políticos e comentaristas militares disseram que a tripulação corre o risco de perder a simpatia do público, em um país onde é forte a presença de tablóides e da imprensa sensacionalista.Sobrancelhas arqueadasEm um comunicado, o Ministério da Defesa disse: "Militares em serviço não são autorizados a fazer arranjos financeiros com organizações de mídia"."Entretanto, em circunstâncias excepcionais uma permissão pode ser dada pelos oficiais comandantes e o Ministério da Defesa."Políticos de oposição manifestaram duras críticas à decisão. "Muitas pessoas que compartilharam da ansiedade da prisão vão pensar que a venda das histórias e um pouco indigna, e está abaixo do nível que se espera de nossos homens e mulheres em serviço", disse o Conservador Liam Fox, que acompanha assuntos de Defesa na oposição.O porta-voz dos Liberal-Democratas para o mesmo assunto, Nick Harvey, afirmou que a decisão do Ministério da Defesa "levantaria algumas sobrancelhas" de ceticismo."Sinceramente, espero que o tiro não saia pela culatra pela perda de simpatia do público em relação aos militares", ele expressou.Neste domingo, os jornais Sunday Times e Sunday Telegraph informam que Faye Turnev, 26, a única mulher presa entre os militares, receberá mais de 100 mil libras (cerca de R$ 400 mil) depois de vender sua história ao canal ITV1 e a um jornal.O rosto de Faye Turnev, que não estava entre os seis que apareceram na coletiva de imprensa realizada na sexta-feira na base de Chivenor, em Devon, ocupou por vários dias as primeiras páginas dos jornais ingleses, que exploraram o fato de ela ser mãe de uma garota.Segundo o Sunday Times, os fuzileiros darão 10% de todos os seus lucros a um fundo do serviço, enquanto os marinheiros guardarão para si os seus ingressos.O jornal disse ainda que o Ministério da Defesa espera controlar a publicidade gerada com o tema. RecompensaUm ex-soldado da SAS, Andy McNab, uma unidade aérea especial das Forças Armadas britânicas, defendeu a decisão do Ministério."Creio que o Ministério entende que a história iria vazar facilmente através de uma terceira pessoa, fosse um membro da família ou mesmo outro militar no serviço. Ao permitir que os 15 vendam suas histórias, eles pelo menos mantêm controle sobre o que sai ao público", afirmou McNab.O coronel Bob Stewart, que comandou as forças de paz britânicas na Bósnia, afirmou: "Toda a história é de extremo mau gosto. Enquanto essas pessoas estão ganhando um monte de dinheiro, seis corpos acabam de regressar do Iraque na última semana, e as suas famílias não estão recebendo nada. Estes não viraram heróis".Craig Murray, ex-chefe da seção marítima do Ministério do Exterior, também expressou um ponto de vista crítico: "Creio que muitos militares em serviço vão se questionar onde diabos isto tudo leva. A idéia de que você pode garantir anos de renda por ser capturado - ao invés de não ser capturado e fazer seu trabalho normalmente - é um sistema de incentivos bastante estranho."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.