Militares do Egito minam futuro líder para preservar império

Estimativas apontam que de 10% a 40% do PIB egípcio está nas mãos dos generais que governam o país há 60 anos

CAIRO, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h06

Um improvável traço em comum une do estádio de futebol quase pronto na periferia do Cairo a postos de gasolina por todo Egito, de fábricas de TV de tela plana à comissão que controla a atual eleição presidencial: todos estão nas mãos dos militares egípcios. Os generais governam o país há 60 anos e, por meio de conglomerados nebulosos, estima-se que dominam de 10% a 40% do PIB nacional, de US$ 180 bilhões. Com o Egito cada vez mais perto de um governo civil, escolhido democraticamente, o lugar que as Forças Armadas ocuparão daqui para a frente é uma das principais incógnitas da política egípcia.

A atividade das empresas militares no Egito é segredo de Estado e jornalistas podem ir para a cadeira se investigarem o assunto. Não há dados confiáveis e analistas duvidam que, mesmo dentro das Forças Armadas, exista um controle centralizado dos negócios. O estádio no Cairo, por exemplo, é da Força Aérea; a fábrica de TV, do Exército.

"A Constituição da era Hosni Mubarak não definia o papel dos militares porque eles eram o poder. Não existia, portanto, essa questão. Agora, será preciso codificar em leis as atribuições das Forças Armadas", disse Nabil Fahmy, cientista político da Universidade Americana do Cairo. "Sem dúvida isso envolverá um jogo de poder."

Nos bastidores, ativistas e deputados eleitos no fim do ano passado reconhecem que, muito provavelmente, os generais conseguirão "se blindar" na próxima Constituição. O orçamento da Defesa deve ficar praticamente fechado à supervisão civil, incluindo as empresas militares, e os oficiais continuarão a dominar temas de "segurança nacional", como os acordos de paz com Israel e a estreita cooperação militar com os EUA, que enviam US$1,3 bilhão em ajuda anual às forças egípcias. A Arábia Saudita doa mais US$ 1 bilhão por ano.

Para assegurar a ordem, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) dobrou os bônus de oficiais de baixa patente desde a queda de Mubarak. Os militares ainda socorreram o Banco Central do Cairo em dezembro com um empréstimo de US$ 1 bilhão.

Novos oligarcas. Apesar do tradicional nacionalismo dos homens de farda, nas últimas décadas as empresas militares firmaram sociedades com investidores internacionais de países do Golfo, Ásia e Europa. Os negócios são tocados na maioria das vezes por oficiais na reserva, que também ocupam cargos centrais da burocracia civil. No bom humor dos ativistas da Praça Tahrir, o Egito de hoje é a "república dos generais de pijama".

Ahmed el-Sayed el-Naggar, analista do centro de pesquisa Al-Ahram, do Cairo, afirma que a rápida cisão entre a cúpula das Forças Armadas e o clã Mubarak, logo no início dos protestos do ano passado, teve uma causa econômica importante. Desde meados dos anos 90, Gamal Mubarak, primogênito e tido como o herdeiro político do ditador, vinha conduzindo um ambicioso projeto de privatização, o qual buscava transferir poder das instituições do Estado para oligarcas próximos à família - muitos deles estão hoje no exílio. A nova política do filho do ditador ameaçava diretamente o poder dos generais.

Em um despacho de 2008 revelado pelo WikiLeaks, a então embaixadora dos EUA no Egito, Margaret Scobey, afirma que a cúpula dos militares via o plano de Gamal como "uma ameaça" às suas empresas "quase comerciais". O sucessor da embaixadora, Frank Riccardone, afirmou em mensagem secreta a Washington que "o marechal Tantawi (hoje comandante da junta militar que governa o Egito) acredita que o plano de reforma econômica (de Gamal) alimenta a instabilidade social ao afrouxar o controle (do Estado) sobre os preços".

Segundo Paul Sullivan, economista da National Defense University de Washington que viveu no Cairo, os conglomerados militares no Egito "ajudam a pagar" o orçamento de Defesa do país e os generais têm papel central em setores onde o investimento privado não responde às necessidades da população. Ele cita como exemplo as crises de abastecimento de pão e farinha em anos recentes, quando padarias - em poder das Forças Armadas - intervieram para aliviar a escassez dos produtos.

"O Egito precisa agora de um pouco de estabilidade e impor mudanças drásticas na economia dos militares não ajudará", disse Sullivan. "Os generais devem entender que são parte da mudança - e não que algo lhes está sendo imposto. As Forças Armadas são a instituição mais poderosa do Egito e, para fazer qualquer mudança, será preciso de muito cuidado." / R. S.

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