Militares egípcios mostram força e fecham cerco contra manifestantes

Caças da Força Aérea fazem voos rasantes sobre a Praça Tahrir, ampliando ainda mais a tensão no país, enquanto Mubarak dá sinais de que não pretende ceder às exigências de renúncia

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

   

CAIRO - A queda de braço entre manifestantes que exigem a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak, e as Forças Armadas do país se tornou mais tensa no domingo, com a aparente disposição dos militares de apertar as medidas para contar os protestos. Jornais independentes já falam em 150 mortos, mais de 1,6 mil detidos, cerca de 100 desaparecidos e a formação de milícias por toda a cidade do Cairo, diante do caos generalizado.

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No começo da madrugada desta segunda, as trocas de tiros se intensificaram pela cidade. Pouco após, a 0h30, fortes explosões eram ouvidas. Segundo as autoridades, houve um confronto na região leste do Cairo, entre detentos fugidos do sistema prisional e a polícia. O conflito durou pouco mais de uma hora.

Na Praça Tahrir, epicentro da crise, manifestantes desafiaram o toque de recolher neste domingo e permaneceram no local pelo sexto dia consecutivo. Durante o dia, caças da Força Aérea faziam voos rasantes, buscando um efeito psicológico nos ativistas.

O presidente não deu nenhum sinal de ceder ou de estar pensando em deixar o poder. "O que vemos nas ruas é o fim da legitimidade do governo Mubarak", afirmou ao Estado Mahmoud Abazzo, presidente do principal partido de oposição, El Wafd. Para ele, o perigo é de que, a partir de agora, a violência no Cairo saia do controle tanto dos manifestantes como do governo. "O futuro do Egito continua em suspense e nosso temor é de que haja um grande banho de sangue."

Para a população, a nomeação de um vice-presidente e de um primeiro-ministro, ambos das bases militares do governo, mostrou que Mubarak não pensa em sair do poder, mas apenas acomodar os militares dentro da estrutura do governo e garantir a aliança com os generais. Nas ruas de algumas cidades, porém, alguns militares já eram vistos ontem abandonando seus tanques dizendo que não cumpririam ordens de reprimir a população.

Entre os manifestantes, a ordem era resistir. "Não sairemos daqui", dizia Abdel Nabi, estudante de medicina. "Já disse aos meus pais que só volto à minha casa quando o Egito for um país livre," Tanto ele como outros ativistas afirmaram que, se no início dos protestos, o sentimento era de otimismo, neste domingo, ele havia se transformado em tensão e medo. "Só esperamos que a Praça Tahrir não se transforme em uma nova Praça da Paz Celestial", disse, em referência ao massacre de 1989 na China.

Do lado do governo, a ordem foi mostrar força total. Com os rasantes sobre o Cairo no início do toque de recolher, às 16 horas locais (meio-dia de Brasília), o regime enviava um sinal claro: o governo ainda tinha o poder nas mãos. Carros incendiados, lojas destruídas e dezenas de tanques transformaram a capital egípcia numa zona de guerra.

O caos no Cairo não é apenas político. Por mais um dia, a polícia desapareceu das ruas, o que obrigou bairros inteiros a formar milícias para defender-se de criminosos. Amigos, parentes e vizinhos passaram a noite em guarda, armados com facas de cozinha e barras de metal para evitar saques. Só neste domingo, 450 pessoas foram presas tentando roubar casas e comércios. Os partidos de oposição, porém, acusam o governo de estar por trás dos saques e do caos. "Mubarak está semeando a insegurança para mostrar que não sabemos viver sem ele", disse Abazzo. Ele também acusou o governo de ter aberto as portas de três prisões de segurança máxima do país, libertando 3 mil detentos e causando conflitos entre gangues.

A guerra de informação também se intensificou. Neste domingo, a emissora Al-Jazira foi tirada do ar pelo governo, depois de difundir imagens da repressão policial. Na TV estatal, as únicas imagens vistas pelos egípcios ontem eram de flagrantes de saques.

Nada disso parecia tirar a vontade dos manifestantes de continuar os protestos. Na noite deste domingo, Ahmed, de 31 anos, já havia montado u sua barraca na praça central. Ao lado, fez uma fogueira para enfrentar o frio da madrugada. A poucos metros dali, um grupo chegou a trazer instrumentos para não deixar ninguém dormir durante a noite.

A sobrevivência de Mubarak tem sido relacionada à continuidade do apoio americano. "Obama precisa entender que, se continuar com essa política perderá credibilidade diante da população de todo o Oriente Médio", afirmou Mohamed ElBaradei, um dos principais líderes da oposição no país, que ontem deixou sua casa e foi à Praça Tahrir para dirigir-se aos manifestantes.

Em Alexandria, bandeiras americanas foram queimadas e a população insistia que as bombas de gás lacrimogêneo eram fabricadas pelos EUA. "Essa guerra só terá uma solução quando a Casa Branca disser a quem apoia", afirmou Hussam el-Khouri, presidente do Partido Jovem do Egito.

AS CHAVES DA CRISE

Origem

Questões econômicas estão na gênese dos protestos no Egito. A crise mundial reduziu a receita da indústria do turismo intensificando o processo de empobrecimento da população e a queda de popularidade do regime. Temas sociais e políticos, como a falta de liberdades individuais e a corrupção generalizada, somaram-se às demandas dos manifestantes após o relativo sucesso das manifestações na Tunísia - cujos resultados foram disseminados pelas redes sociais na internet.

Liderança

Quase todos os analistas descreveram as manifestações iniciais como espontâneas, convocadas por grupos de jovens estudantes por meio de sites como o Facebook e o Twitter. Pelo menos nos primeiros dias de protestos, os manifestantes resistiram a aceitar a liderança de partidos políticos organizados. Embora o opositor Mohamed ElBaradei tenha voltado ao país e despontado como nome natural para chefiar um governo de transição, ele não é visto como líder do movimento.

Militares

O Exército egípcio, laico e um dos dez maiores do mundo, é visto como garantia de contenção dos fundamentalistas islâmicos, congregados principalmente na Irmandade Muçulmana. Na atual crise, há dúvidas sobre até que ponto as Forças Armadas manterão a lealdade a Mubarak. Há relatos, em algumas cidades do Egito, da adesão de alguns soldados e policiais ao movimento antigoverno.

Reação

Mubarak decretou seguidos toques de recolher - desafiados pelos manifestantes -, ampliou a presença de militares nas ruas e interrompeu serviços de comunicação como os de telefonia celular e internet. No domingo, ordenou a retirada do ar da emissora de TV do Catar Al-Jazira. O ditador dissolveu na sexta-feira seu gabinete de ministros e prometeu a formação de um novo governo. No dia seguinte, nomeou vice-presidente o chefe do serviço militar de inteligência, o linha-dura Omar Suleiman.

Diplomacia

O Egito é uma das mais importantes peças do xadrez geopolítico do Oriente Médio. Signatário desde 1979 de um acordo de paz com Israel, patrocinou ensaios de aproximação entre Israel e Síria e participou ativamente de negociações entre israelenses e palestinos.

Relações com os EUA

Numa região dominada pelo sentimento anti-EUA, Mubarak tem sido útil na contenção dos radicais islâmicos - principais alvos da guerra contra o terror da Casa Branca. O Egito, de população árabe majoritariamente muçulmana sunita, é ainda um ator importante para limitar a influência do Irã, persa e xiita, na região do Golfo Pérsico.

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