Militares entrincheirados em praça desafiam Chávez

"Você está entrando em um município seguro", diz um cartaz na divisa entre a capital do país, Caracas, e Chacao, município de classe média e média alta, devidamente custodiada por policiais impecavelmente uniformizados com camisa cáqui, calça azul escura e chapéu safári. Bem no coração de Chacao, na Praça Altamíra, 140 militares, de soldados a generais de divisão, se encontram entrincheirados desde o dia 22 de outubro, transformando a praça pública no reduto de uma parte da oposição que exige a renúncia do presidente Hugo Chávez, no poder desde fevereiro de 1999. "Não se trata de movimento político algum. Somos apenas um grupo de oficiais condenados pelo levante de 11 de abril (tentativa de golpe contra Chávez) e que, agora, a Justiça decidiu absolver", explicou à Agência Estado o vice-almirante do Exército, Daniel Comisso. Altamíra é o exemplo claro e extremo da exclusão social, do problema racial e da divisão geográfica que existem hoje na Venezuela. "O país vive uma inversão social, uma crise de conceito e uma aberração moral. O desprezo de uma classe pela outra e o racismo, que ficou evidente nesses últimos meses existe há anos", alertara, poucas horas antes, o diretor da Faculdade de História da Universidade Central de Venezuela (UCV), Samuel Moncada, ao ser informado que a reportagem visitaria a Praça Altamíra, palco de três mortes na sexta-feira da semana passada, quando um atirador desconhecido fez dos manifestantes seu alvo. O vice-almirante, em traje de campanha, recebeu o repórter depois de devidamente identificado e revistado, antes de passar pelo cordão de bloqueio que impede a entrada de pessoas ao toldo improvisado em meio à praça. "A nossa desobediência legítima, de desconhecer o regime de Chávez, tem como base o Artigo 356 da Constituição do país", explicou Comisso, ao ser indagado como um grupo de pessoas podia tomar a liberdade de ocupar espaço público e defini-lo como "território livre", dentro de um Estado, que, queiram ou não, tem um presidente no exercício do mandato. Existe algum risco de atitudes como esta levarem a um confronto violento com os seguidores do presidente e desencadear, com isso, uma explosão social?, indagou a Agência Estado ao militar. Sim, mas quem está com a mão na válvula de segurança é Chávez e não nós, respondeu. De acordo com Comisso, os militares entrincheirados e os seu seguidores, que não disse quantos, adotaram como princípio da desobediência ao governo eleito democraticamente em dezembro de 1998 a "não violência e a democracia para tirar Chávez da presidência o mais rápido possível". "Se houver violência, não será da nossa parte. Mas a utilizaremos para defender-nos", disse o militar, em tom desafiador. Comisso explicou que, com a postura adotada por seu grupo de entrincheirados, foi possível conseguir, direta ou indiretamente, a solidariedade dos grupos civis de oposição ao governo. "Conseguimos também que o mundo entendesse, por meio da imprensa internacional, o que está ocorrendo na Venezuela e ainda a concretização de uma mesa de negociações entre a oposição e o governo Chávez, com a mediação do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria", afirmou. O vice-almirante não disse, entretanto, que a intervenção de Gaviria foi conseguida pelo presidente Hugo Chávez, preocupado com o risco de convulsão social. Com isso, fazendo coro à Central Venezuelana de Trabalhadores (CVT) e à Fedecâmaras, entidade empresarial, reafirmou ainda que a greve geral só será suspensa com a renúncia de Chávez ou com a convocação antecipada de eleições. A tática para isso, reconheceu o militar, é provocar um enforcamento econômico do governo. "O impacto da paralisação começará a ser sentido a partir desta segunda-feira, já que o desabastecimento de alimentos e de combustíveis deverá se agravar. Além disso, o governo não terá recursos para pagar o funcionalismo público." Ao ser lembrado que Chávez foi eleito democraticamente em sete eleições e plebiscitos consecutivos, pela grande maioria dos venezuelanos, Comisso foi taxativo: "O que as pessoas e o próprio Chávez não entenderam até agora é que os que votaram, não votaram nele, mas contra o que existia neste país há 40 anos." O vice-almirante evitou comentar que ele e o grupo de militares que lidera hoje faziam parte desse grupo que conduziu a Venezuela nas últimas quatro décadas, e levou o país a essa divisão. Ao sair do município de Chacao, o muro de um prédio pichado parecia dar um recado aos visitantes dessa região rica de Caracas: "O dia em que a mídia decidir dizer a verdade, as paredes se calarão."

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