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Militares intensificam repressão, fecham jornais e prendem jornalistas em Mianmar

Manifestantes foram encurralados no centro histórico de Yangon após protesto no Dia Internacional da Mulher; sedes de meios de comunicação foram invadidos por militares e profissionais foram presos

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 15h00

YANGON, Mianmar - A junta militar que tomou o poder em Mianmar vem intensificando a repressão no país. Veículos de imprensa foram fechados, jornalistas presos e manifestantes da oposição foram perseguidos durante a noite em um bairro de Yangon.

Centenas de pessoas, muitas delas mulheres, só puderam sair às ruas na manhã desta terça-feira, 9, após passarem a noite se escondendo das forças de segurança do governo. No dia anterior, os manifestantes haviam participado de uma marcha pelo Dia Internacional da Mulher.

Durante o ato, os oposicionistas foram encurralados no bairro de Sanchaung, no centro histórico de Yangon, depois que a polícia bloqueou todas as vias de saída do local na tarde de segunda-feira, 8.

As forças de segurança lançaram granadas de efeito moral e dispararam repetidas vezes, mesmo com o apelo dos manifestantes, aos gritos, para saírem do local.

Muitas pessoas se esconderam nas casas de vizinhos à espera de que a polícia e os serviços secretos, que intimidaram os residentes ao questionarem cada um deles porta a porta, interrompessem o assédio. O cerco aos manifestantes acabou durante a madrugada.

Alguns dos manifestantes que ficaram presos no centro histórico disseram à agência de notícias EFE que não deixaram o local até o nascer do sol, pelo temor de que a retirada das tropas fosse uma armadilha.

Pelo menos 40 pessoas foram presas na ação policial, segundo testemunhas, que afirmaram que caminhões militares levaram os opositores detidos.

Apesar da perseguição, os cidadãos de Mianmar regressaram às ruas nesta terça em várias cidades do país, como Yangon e Mandalay, para cobrar o retorno da democracia e o respeito ao resultado das eleições de novembro do ano passado. Os manifestantes também exigem a soltura dos líderes civis presos no golpe de Estado, incluindo a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi.

Censura à imprensa e a jornalistas presos

Os militares também aumentaram a perseguição aos meios de comunicação independente e aos jornalistas que nele trabalham. Os alvos são as publicações que denunciam o golpe de Estado de 1º de fevereiro e a repressão violenta que já vitimou cerca de 60 pessoas.

Dois jornalistas foram presos em Yangon na terça-feira, somando-se a uma ampla lista de mais de 30 profissionais da imprensa que foram detidos desde o golpe.

O canal público MRTV, agora controlado pelo Exército, anunciou, na noite de segunda, o cancelamento das licenças para a publicação e retransmissão dos meios de comunicação Myanmar Now, 7 Day News, Democratic Voice of Burma, Mizzima e Khit Thit News, que a partir de agora vão não poderão continuar informando legalmente sobre o que está acontecendo no país.

Apesar disso, Mizzima, criada por jornalistas exilados em 1988, reafirmou seu compromisso de "continuar lutando contra o golpe militar e a restauração da democracia e dos direitos humanos" e se comprometeu a continuar a reportar em seus portais digitais e redes sociais.

"Estamos num ponto em que continuar a fazer o nosso trabalho significa correr o risco de sermos presos ou assassinados. A verdade é que não deixaremos de cobrir os enormes crimes que o regime tem cometido em todo o país", afirmou, por sua vez, Swe Win, editor-chefe do Myanmar Now, portal fundado em 2015 - cuja sede foi invadido pelos militares.

Embaixador no Reino Unido apela pela libertação de Suu Kyi

O embaixador de Mianmar no Reino Unido, Ktaw Zwar Minn, nomeado pelo governo civil, exigiu em uma carta a libertação da líder deposta, Aung San Suu Kyi, sob prisão domiciliar desde o primeiro dia do levante.

"A diplomacia é a única resposta. A única saída para a crise atual só pode ser encontrada na mesa de negociações", disse o diplomata, em um gesto "de coragem e patriotismo" elogiado pelo chanceler britânico Dominic Raab.

O embaixador de Mianmar na ONU, Kyaw Moe Tun, e a embaixada de Washington também se distanciaram publicamente da junta militar.

De acordo com a imprensa de Mianmar, pelo menos 10 diplomatas birmaneses em Washington, Los Angeles, Nova York e Bruxelas aderiram ao movimento de desobediência civil na semana passada.

O isolamento da junta militar aumenta com a condenação internacional generalizada e as sanções impostas a comandos selecionados do Exército e seus interesses econômicos pelos EUA, Reino Unido e Canadá.

O Exército justificou a tomada do poder por uma alegada fraude eleitoral nas eleições de novembro, onde os observadores internacionais não detectaram qualquer fraude e em que a Liga Nacional para a Democracia, o partido liderado por Suu Kyi./ EFE

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