Lynn Bo Bo/EFE
Lynn Bo Bo/EFE

‘Militares precisam mostrar que sabem governar’, dizem funcionários públicos em Mianmar

Embora coloquem suas vidas e salários em risco, muitos funcionários públicos se recusam a trabalhar para a Junta militar e se uniram ao crescente movimento de desobediência civil que visa a enfraquecer os generais e paralisar a burocracia

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2021 | 09h00

YANGON - Em Mianmar, os hospitais estão desertos, as administrações operam lentamente, e os trens permanecem estacionados nas plataformas. Embora coloquem suas vidas e salários em risco, muitos funcionários públicos se recusam a trabalhar para a Junta militar e se uniram ao crescente movimento de desobediência civil que visa a enfraquecer os generais e paralisar a burocracia.

"Os militares precisam mostrar que sabem governar um país. Mas, se nós, funcionários, não trabalharmos, seu projeto de tomada do poder fracassará", disse Thida, uma professora universitária que prefere manter o anonimato e se recusa a dar aulas on-line, três semanas após o golpe. Além disso, ela se juntou à greve nacional lançada por profissionais da saúde, muitos dos quais devem se esconder para evitar a prisão.

Escritórios e empresas do setor privado também foram afetados por interrupções no trabalho, enquanto várias agências bancárias não conseguiram abrir. O aumento do quadro de funcionários dentro do protesto é o que tem abalado a Junta. Sem eles, não é possível arrecadar impostos, enviar contas de luz, ou organizar teste de covid, ou seja, tudo que implica o funcionamento do país.

A possibilidade de uma crise financeira se aproxima, devido à pandemia e ao declínio do investimento estrangeiro. É difícil determinar quantos funcionários públicos, dos milhões que Mianmar possui, estão em greve.

De acordo com uma investigação, 24 ministérios foram afetados, e o relator nomeado pela ONU para Mianmar estima que cerca de 75% dos servidores públicos pararam de trabalhar. Sua ausência começa a impactar o regime.

Pelo menos um terço dos hospitais do país não está funcionando, declarou essa semana Min Aung Hlaing, autor do golpe de Estado e chefe da Junta militar.

Ele também criticou a falta de profissionalismo dos trabalhadores da saúde e dos professores e deu a entender que aqueles que não aderiram à greve receberão um bônus, segundo declarações publicadas na terça-feira na mídia estatal. 

De acordo com um médico consultado pela agência France Presse, a falta de pessoal obrigou seu hospital a rejeitar novos pacientes. E equipes médicas especializadas foram treinadas para atender manifestantes atingidos por balas de borracha e reais. 

A imprensa local noticia que, em todo país, empregados de escritórios, executivos e caminhoneiros foram demitidos por participarem do movimento. "O Exército não previu que grande parte da função pública se retiraria e os deixaria sem um aparato estatal", disse um analista que pediu o anonimato por medo de possíveis represálias.

Momento crucial para a Junta

Sexta-feira será um momento crucial para o conselho de administração do Estado (nome oficial da Junta), pois é dia de pagamento, o primeiro desde o golpe, para muitos birmaneses, principalmente para todos os funcionários públicos.

O Banco Econômico de Mianmar (MEB), responsável pelo pagamento dos salários e pensões dos funcionários públicos, é afetado pelas greves, mas os meios de comunicação estatais confirmaram que os salários serão pagos, ao contrário dos "rumores infundados" que têm circulado.

Um exemplo do clima tenso em Mianmar se reflete no aumento das ameaças de processos judiciais que os grevistas receberam, caso se recusassem a voltar ao trabalho, ou das inúmeras detenções noturnas entre os participantes do movimento de desobediência civil. Uma linha telefônica permite que se denuncie os grevistas./AFP

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