EFE/EPA/KEVIN DIETSCH
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Militares temem trocas na cúpula do Pentágono 

Trump coloca aliados em postos-chave da segurança nacional e funcionários suspeitam que ele se movimenta para resistir no cargo 

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Em meio à desordem causada pela reação de Donald Trump ao resultado da eleição, o Pentágono sofreu uma mudança radical de comando. Após a demissão do secretário de Defesa, Mark Esper, a cúpula do departamento pediu para sair e quatro nomes leais ao presidente assumiram cargos estratégicos. Segundo o Washington Post, militares e funcionários suspeitam que o plano seja ajudar Trump a resistir no cargo. 

Os nomes leais ao presidente, segundo fontes do Departamento de Defesa ouvidas pelo Washington Post, estariam retardando a transição, acertando contas com adversários e promovendo agenda própria. À medida que altos funcionários do Pentágono perdem o emprego, todas as atenções se voltam para o futuro do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, que caiu em desgraça com muitos dentro da Casa Branca e seria um dos últimos obstáculos para o controle total do Pentágono.

Milley não pretende renunciar e Trump ainda não decidiu demiti-lo. Outros funcionários que se recusaram a renunciar, como a vice-diretora da Usaid, Bonnie Glick, foram demitidos sem explicação. O general entrou em choque com uma facção de assessores de Trump que está expurgando quem é considerado desleal ao presidente.

Em junho, Esper e Milley irritaram Trump ao discordarem do uso de tropas para reprimir protestos e da ordem de usar agentes químicos para dispersar manifestantes na Casa Branca, para que o presidente pudesse tirar uma foto com uma bíblia na mão diante de uma igreja – Milley e Esper aparecem na foto com Trump.

“Eu não deveria ter ido”, disse Milley, em vídeo da National Defense University, alguns dias depois. “Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou uma percepção de que os militares estão envolvidos em política.”

Mas Milley é mais difícil de demitir do que Esper. Em 2019, ele foi confirmado pelo Senado para um mandato de quatro anos por 89 a favor e 1 contra. Substituí-lo por um nome leal seria difícil, porque o cargo deve ser preenchido por um alto comandante militar. Muitos dentro do Pentágono, porém, alertam que nada impede a Casa Branca de se livrar dele. 

Enquanto isso, os aliados de Trump se aproveitam para ocupar o vácuo deixado no Pentágono. A saída repentina do subsecretário de Políticas de Defesa, John Anderson, por exemplo, deixou o cargo nas mãos de Anthony Tata, um trumpista fanático que certa vez chamou Barack Obama de “líder terrorista”. Tata foi reprovado em uma sabatina, em agosto, em razão de suas declarações explosivas e da falta de qualificação.

Outro problema identificado por militares e funcionários civis, de acordo com a CNN, é a decisão do governo de retirar completamente as tropas americanas do Afeganistão – a equipe de Esper era contra, argumentando que pode ser prematuro. “É assustador”, disse uma fonte do Pentágono à CNN, que não se identificou. “São movimentos de um ditador.” 

Os democratas se dizem preocupados. “A rotatividade de altos funcionários no Departamento de Defesa durante a transição presidencial é um risco. A renúncia do responsável pela política de defesa, no dia seguinte à demissão do secretário, marca o início de um processo de destruição do Pentágono”, disse Adam Smith, presidente da Comissão de Serviços Armados da Câmara.

O momento-chave agora é saber quando a Administração de Serviços Gerais (GSA) certificará que Joe Biden ganhou a eleição – uma espécie de chancela em lei da vitória democrata. Trump pode ordenar que seus oficiais não cumpram a determinação, o que forçaria o alto escalão do Pentágono, incluindo Milley, a escolher entre seguir a lei ou permanecer leal ao presidente. Se isso ocorrer, a crise alcançaria um nível novo e perigoso. / WP e AP

 

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