Militares turcos depõem sobre suposta tentativa de golpe

Investigadores da Turquia interrogaram hoje dezenas de militares de alta patente, acusados de um suposto plano de golpe contra o governo. Ontem, a polícia antiterrorismo deteve 49 suspeitos de participar de um plano chamado "operação marreta" cujo objetivo seria depôr o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, pelas iniciais em turco), de raízes islâmicas.

AE, Agencia Estado

23 de fevereiro de 2010 | 16h37

Os suspeitos teriam planejado explodir bombas em mesquitas, elevar as tensões com a Grécia e forçar a queda de um jato turco, como ações para desestabilizar o governo. Dezessete generais aposentados e quatro almirantes ainda na ativa estão entre os detidos, que foram levados para interrogatório em Istambul.

Dentre eles está o ex-chefe da Força Aérea Ibrahim Firtina, o ex-chefe da Marinha Ozden Ornek e o ex-chefe do Primeiro Exército, sediado em Istambul, Cetin Dogan, que é acusado de liderar o golpe. As primeiras informações sobre a "operação marreta" foram divulgadas em janeiro pelo jornal Taraf, que normalmente critica o Exército.

O diário diz que o plano foi discutido num seminário militar em março de 2003 e publicou transcrições de fitas de áudio que parecem confirmar que algum tipo de ação contra o governo foi discutida na reunião. O Estado Maior afirmou que o seminário envolveu a discussão de contingências em tempos de guerra, mas negou qualquer plano de golpe.

Dogan confirmou que as ameaças de movimentos islâmicos foi discutida, mas disse que os documentos foram alterados, e que informações sobre planos de explodir bombas em mesquitas e sobre a queda de um avião turco foram incluídas.

O secular Exército turco tradicionalmente tem forte influência política e depôs quatro governos desde 1960. A última vez foi em 1997, quando obrigou o primeiro-ministro islâmico Necmettin Erbakan a deixar o cargo.

Críticas ao governo

O partido que governa o país foi formado por moderados da legenda de Erbakan, cujo partido foi proscrito. Os dois maiores partidos de oposição da Turquia, ambos vítimas de golpes anteriores, criticaram o governo hoje pelas últimas prisões realizadas.

O principal líder da oposição, Deniz Baykal, questionou a razão pela qual uma grande operação foi montada contra generais da reserva que "assistem televisão em casa, de pijamas e chinelos" com base em acusações sobre acontecimentos de sete anos atrás. "Este obviamente é um processo de acerto de contas político", disse ele.

O líder da oposição nacionalista, Devlet Bahceli, disse que o governo está agindo com "ódio" e "sentimentos de vingança" e pediu a realização de eleições antecipadas.

Soldados da reserva e da ativa também estão dentre as dezenas de réus do controverso caso contra uma rede que supostamente planejou assassinatos e outros atos de violência para provocar o caos político e dar início a um golpe militar.

A oposição diz que o Partido Justiça e Desenvolvimento tem ambições secretas de acabar com o sistema secular. Em 2008, a legenda escapou por pouco de ser banida por violar o sistema secular da Turquia.

Comissão Europeia

A Comissão Europeia expressou preocupação hoje sobre as "sérias acusações" contra dezenas de altos militares turcos. "Os cidadãos turcos têm de ouvir toda a verdade sobre esses casos", disse Angela Filote, porta-voz do comissário de Ampliação da UE, Stefan Fule.

"Por essa razão a investigação deve ser exemplar e realizada com amplo respeito aos princípios e padrões de um processo judicial justo", disse Filote.

As informações são da Dow Jones.

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