Militares tentam golpe, põem Turquia sob lei marcial, mas Erdogan resiste

Militares tentam golpe, põem Turquia sob lei marcial, mas Erdogan resiste

Pelo menos 42 pessoas morreram em Ancara, entre elas 17 policiais favoráveis ao presidente, e mais de 130 militares do Exército foram presos; opositores acusam líder turco de promover farsa para reforçar seus poderes e obter pretexto para violar a Constituição

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2016 | 17h20

GENEBRA – Uma tentativa de golpe militar contra o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deixou nesta sexta-feira, 15, ao menos 42 mortos na capital, Ancara. O presidente retornou a Istambul depois de milhares de turcos terem atendido a seu chamado de tomar as ruas contra o golpe, enquanto partidos de oposição rejeitavam apoiar o movimento golpista. 

Ao menos 130 militares foram presos, segundo o Ministério Público da Turquia. Havia relatos de um deputado opositor morto em ataque ao Parlamento do país.

“Esse golpe é uma dádiva de Deus para que façamos uma limpeza no Exército”, disse Erdogan após voltar a Istambul. “Quem está mobilizado em tanques contra nós deve se render. Milhões de turcos estão nas ruas em plena madrugada contra essa minoria do Exército.”

Opositores do governo de Erdogan, porém, acusam-no de liderar uma farsa, destinada exatamente a reforçar seus poderes e justificar violações à Constituição e aos direitos humanos. O processo de desestabilização da Turquia passou a ser acompanhado de perto pelas grandes potências, alarmadas diante do risco de um colapso institucional e da violência num país com quase 3 milhões de refugiados sírios e à beira dos territórios controlados pelo Estado Islâmico. 

O país que é membro da Otan serve de base para operações contra os grupos jihadistas no Iraque e Síria. Hoje mesmo, o presidente dos EUA, Barack Obama, emitiu uma declaração apoiando “o governo eleito democraticamente” na Turquia, num sinal claro de que não reconheceria uma nova administração. 

Mas a resistência do governo, a disposição popular de desafiar os tanques e a insistência do grupo militar em manter o golpe jogaram o país em um impasse. Em Istambul, as duas pontes sobre o Bósforo foram fechadas, enquanto jatos e helicópteros faziam voos rasantes pela cidade. Em Ancara, ouviam-se tiros e explosões. Parte do comando militar havia sido sequestrada pelos soldados que lideraram o golpe. 

Fontes ouvidas pelo Estado relataram que a população, assim que foi informada da tentativa do golpe, se precipitou às ruas para comprar mantimentos e retirar dinheiro nos caixas eletrônicos. Todos os voos em direção ao país ou a partir da Turquia foram cancelados e os aeroportos fechados. 

Soldados ainda ocuparam a televisão pública, obrigando os apresentadores a lerem declarações que informam que uma nova constituição será estabelecida, já que a democracia e um regime secular haviam sido minados pelo atual governo. A lei marcial também estaria em vigor.  

Declarações dos militares que afirmam ter tomado o poder apontam que a meta do golpe seria defender os direitos humanos e "proteger a ordem democrática". O grupo, ainda não identificado, aponta que manteria as relações diplomáticas da Turquia com seus atuais aliados, em um posicionamento direcionado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

"As Forças Armadas da Turquia completaram a tomada da administração do país para reinstalar a ordem constitucional, direitos humanos e liberdade, o estado de direito e a segurança geral que foi afetada", indicou o comunicado dos militares. "Todos os acordos internacionais ainda são válidos. Esperamos que toda nossa boa relação com todos os países continue", garantem.

No poder como primeiro ministro por 11 anos e desde 2014 como presidente, Recep Tayyip Erdogan estava de férias fora do país. Criticado por entidades de direitos humanos, ele havia tomado uma postura de restrições à liberdade de expressão, mas mantinha um importante apoio entre parte da população. 

Governos como o dos Estados Unidos e da França emitiram comunicados a seus nacionais, pedindo que permaneçam em suas residências e hotéis. 

Falando para as agências internacionais, o primeiro-ministro turco, Binali Yıldirim, confirmou que um golpe de estado estava sendo realizado por "parte dos militares", e garantiu que o governo estava fazendo "todo o necessário para resolver a situação". Segundo ele, os responsáveis pagariam uma "alto preço".

Em entrevista à rede turca NTV, ele confirmou que existia um golpe em curso. "Isso é correto", afirmou. "A Turquia não vai permitir que uma iniciativa interrompa a democracia", disse.  

"Estamos focados na possibilidade de um golpe", disse. "Houve um ato ilegal de um grupo dentro dos militares, agindo fora da cadeia do comando militar", afirmou. "Nosso povo deve saber que não vamos permitir qualquer atividade que seja uma ameaça à democracia", declarou.

Em nota, a presidência turca alertou aos cidadãos que há "um ataque contra a democracia turca". "Um grupo dentro das forças armadas tenta derrubar um governo eleito democraticamente, fora da cadeia de comando", indicou. 

"A declaração em nome das Forças Armadas não foi autorizada pelo comando militar e pedimos ao mundo que mostre solidariedade com o povo turco", declarou a presidência em Ancara. 

O Estado apurou que funcionários da ONU em diversas partes da Turquia receberam alertas de seus escritórios centrais de que um golpe estava em curso e foram orientados a ficar em suas casas. A Turquia conta com mais de 2 milhões de refugiados e uma ampla presença de grupos humanitários das Nações Unidas. 

Fontes próximas ao governo turco disseram ao Estado que haveria uma reunião em agosto para tratar de mudanças no Exército. Muitos militares de alto escalão seriam retirados da cúpula.  / Colaborou Fernanda Simas

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