Felipe Frazão/ Estadão
Felipe Frazão/ Estadão

Militares venezuelanos revistaram celulares de brasileiros na fronteira

Eles foram obrigados a descer dos carros e entregar telefones para uma checagem feita pelos soldados

Felipe Frazão, Enviado Especial / Pacaraima (RR), O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 19h18

A Guarda Nacional Bolivariana (GNB) revistou os celulares do grupo de 152 brasileiros autorizado a cruzar a fronteira num acordo diplomático entre a Venezuela e o Brasil. A fronteira está fechada desde quinta-feira.

Segundo relataram ao Estado, esses brasileiros foram obrigados a descer dos carros e entregar telefones para uma checagem feita pelos soldados, que buscavam registros em fotos ou vídeos dos conflitos internos e pessoas em situação miserável, efeito da crise econômica e política. Outros turistas que haviam chegado antes tiveram de ouvir discurso político com elogios a Nicolás Maduro feito por militares.

“Fomos orientados a não fotografar nada e a apagar o que tivéssemos gravado”, disse a servidora pública Adriana Brum, de 32 anos. “Revistaram celular, mochila, tudo. O grupo anterior teve de ouvir um general fazer uma palestra enaltecendo o Maduro”, afirmou a atuária Francieli Cruz, de 27 anos. 

Adriana e Francieli faziam parte de uma expedição de turismo de aventura ao Monte Roraima. A caminhada durou sete dias, sem que recebessem qualquer informação sobre os confrontos na região urbana mais perto da montanha. Elas se assustaram quando chegaram a Santa Elena do Uairén e viram caminhões queimados, marcas de bala nas paredes das casas e o comércio fechado. Autoridades locais estimam que houve 25 mortos.

“Havia um toque de recolher. Os guias nos diziam que o Exército era muito violento. E até entendermos que os milicianos estavam junto dos militares, contra o povo ... Ficamos com medo do Estado venezuelano. Está muito pior do que aparenta. O povo está desesperado, aguardando intervenção. É ditadura mesmo. Não temos noção no Brasil do que é esse cerceamento. E olha que sofremos só por umas 30 horas”, relata Adriana. “Ficamos com medo do risco iminente de intervenção militar estrangeira. Se tivesse, não teríamos saído de lá tão cedo”, afirma Francieli.

Aparência

O regime de Maduro realizou um esforço midiático para tentar passar a sensação de normalidade no país, apesar dos confrontos entre militares e milicianos com os opositores, dentro da Venezuela e nas fronteiras com o Brasil e a Colômbia. A mídia oficial do governo cobriu manifestações organizadas pelos chavistas na fronteira com o Brasil. 

Os generais publicam vídeos nas redes sociais negando violência de parte deles. Houve celebrações e festejos armados pelos chavistas em Santa Elena do Uairén, cidade que ficou depredada e cravejada por balas, com bases militares e carros incendiados. Os hospitais foram limpos para dar a aparência de que nada ocorrera. Ao longo do fim de semana, civis foram transportados pelo governo em ônibus escolares para promover uma maquiagem na cidade, removendo entulho, lixo.

Comida

As turistas dizem que mesmo os venezuelanos que trabalham no turismo passam necessidades. Elas deram gorjetas e presentearam os guias da expedição com artigos em falta no país, como tênis e roupas esportivas. 

A escassez de alimentos e medicamentos agrava a crise por causa da inflação, o que afeta os mais pobres. A dieta, a base de pão, arepas e sopa, carece de proteínas. “As pessoas estão comendo do lixo. Uma latinha de atum custou R$ 20. Ainda tem alguma coisa nos mercados, mas hiperinflacionado”, diz Adriana. “Os venezuelanos estavam comendo o resto da nossa comida lá no Monte Roraima. Não sei se é cultural, se é porque está faltando mesmo ou se estão numa situação de trabalho escravo. A dieta deles é baseada em pão, arepa. É muito primitivo.”

Um relato semelhante causou durante a semana a detenção e a expulsão de uma equipe da TV Univisión que entrevistava Maduro no Palácio Miraflores, em Caracas. O presidente chavista irritou-se ao ser confrontado com um vídeo em que os jornalistas flagravam venezuelanos pobres catando e comendo comida direto da caçamba de um caminhão de lixo. 

O desabastecimento iminente de Santa Elena também afetou o atendimento aos brasileiros no vice-consulado da cidade. O vice-cônsul Ewerton Oliveira, com autorização de generais chavistas, veio ao Brasil buscar suprimentos. Ele foi elogiado pelas turistas pela “desenvoltura” para dar o atendimento e negociar permissões com os comandantes chavistas. Elas, porém, disseram que a estrutura da representação é precária – faltou água, conexão com internet e remédios. O Itamaraty fez sondagens para uma eventual operação de transporte dos residentes na Venezuela que queiram deixar o país no caso de agravamento da crise. Dos 13 mil brasileiros na Venezuela,  2 mil vivem em Santa Elena. O vice-cônsul minimizou riscos de segurança e afirma que a estrutura atualmente têm dado conta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.