'Militares violaram sexualmente crianças'

Segundo diplomata brasileiro, violenta repressão de Assad afetou mais de 3 milhões de pessoas

Entrevista com

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2011 | 03h01

O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro está impressionado com a dimensão das violações de direitos humanos na Síria. Em entrevista ao Estado, garante que o fato de sua entrada ter sido vetada no país não impediu sua equipe de coletar dados.

A principal conclusão que o sr. faz é que há provas de crimes contra a humanidade. O que o sr. espera que ocorra agora?

Não nos cabe dizer o que deve ser feito. É uma questão para os Estados decidirem. Pedimos à comunidade internacional que tome medidas claras para acabar com a violência. É sua obrigação também. Observadores internacionais precisam ser enviados. O mais urgente é proteger a população. Pedimos que haja um embargo de armas, tanto para o governo quanto para a oposição. Se isso ocorrer, os riscos de que uma guerra civil se instale serão menores.

Mas há sinais claros de que a responsabilidade por esses crimes seja do Estado?

Ficou claro que há a responsabilidade patente das Forças Armadas e o Estado é quem responde por elas. O Exército cometeu crimes contra a humanidade, incluindo estupros, torturas e assassinatos contra civis. Nada disso teria ocorrido sem o consentimento do alto escalão. Pedimos que sejam punidos.

O governo da Síria fez alguma objeção durante a investigação?

Tentamos ter acesso ao país e isso não nos foi concedido. O que nos foi dito era que, uma vez terminado o trabalho de uma comissão interna de investigação que os sírios montaram, seríamos autorizados a entrar. Mas nunca recebemos nenhuma informação sobre o trabalho dessa comissão interna nem sobre seus resultados.

Conseguimos, com o relato de mais de 200 pessoas, ter uma boa imagem do que ocorre hoje na Síria. Não fomos à Síria, mas isso não quer dizer que não saibamos o que ocorre lá. Além disso, tivemos acesso a relatórios médicos, vídeos e centenas de documentos.

O sr. foi relator especial da ONU para países com ditaduras, como Mianmar. O que o surpreendeu desta vez na Síria?

A impunidade e o pouco caso que militares tiveram com crianças, com torturas e assassinatos. O mais relevante foi a dimensão da repressão, que atinge muitos e com os mais variados instrumentos. Podemos dizer que 3 milhões foram afetados pela violência de algum modo. Existem entre 15 e 20 mil presos e milhares de desaparecidos. O Exército usou armas de fogo contra a população desarmada e crianças foram violadas sexualmente com cassetetes.

O governo insiste que é alvo de uma campanha terrorista. O sr. viu algo nesse sentido ?

O governo não compartilhou nada conosco. Apenas insiste que 1,1 mil soldados morreram. Mas não diz quem são. / J.C.

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