Milosevic acusa "o novo colonialismo" do Ocidente

O ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic terminou três dias de acusações contra "o novo colonialismo" do Ocidente, e ouviu a primeira testemunha da promotoria do julgamento por crimes de guerra, nesta segunda-feira afirmar que ele sabia que mulheres e crianças foram massacrados em Kosovo.O líder do Partido Comunista em Kosovo durante os últimos anos do governo de Josip Broz Tito, Mahmut Bakali, disse que, em 1997, havia tomado conhecimento, através do chefe dos serviços de segurança da Sérvia, David Gajic, dos planos para uma invasão sérvia de Kosovo, a província da Sérvia habitada por uma maioria de albaneses étnicos. "Foi um plano da Sérvia, ou de Milosevic", afirmou ele, "isto seria uma insanidade em grande escala".O testemunho de Bakali levou o julgamento para a segunda fase, depois que os promotores e Milosevic passaram uma semana trazendo seus casos à tona em declarações abertas. O ex-presidente iugoslavo está sendo julgado por 66 acusações de crimes de guerra durante as guerras balcânicas entre 1991 e 1999 incluindo um indiciamento por genocídio na Bósnia. Ele pode ser condenado à prisão perpétua, caso seja considerado culpado por qualquer um dos crimes.Ao longo de dez horas, Milosevic tomou a ofensiva, culpando os inimigos pelos crimes dos quais ele próprio é acusado, e descrevendo a si mesmo como promotor da paz. Embora Milosevic não tenha quase tocado nas acusações específicas que pesam contra ele nos casos da Croácia, Bósnia e Kosovo, demonstrou desprezo em relação ao quadro que a promotoria fez dele - como uma pessoa com uma sede imensa de poder, que orquestrou o assassinato e as expulsões de não sérvios, a fim de criar uma "grande Sérvia" na antiga Iugoslávia.Para conseguir a condenação, a promotoria precisa provar que Milosevic ordenou as atrocidades contra civis, ou que ele sabia - ou tinha motivos para sabê-lo - dos crimes cometidos pelos seus subordinados, e que ele não foi capaz de evitar ou punir os perpetradores.Com as primeiras testemunhas, a promotoria começou a montar o caso - segundo o qual as brutalidades sérvias foram premeditadas ou bem planejadas. Bakali disse que o plano do qual tomou conhecimento através de Gajic tinha a intenção "de destruir 700 localidades habitadas por albaneses étnicos, destruir propriedades e pessoas". Bakali afirmou ter advertido o chefe dos serviços de segurança de que a blitz poderia resultar em guerra. Bakali foi expulso da liderança iugoslava depois da morte de Tito, em 1980, por, supostamente, ter organizado protestos pró-independentistas promovidos pelos albaneses étnicos.Ele desapareceu da vida pública até 1998, quando tornou-se membro da delegação kosovar albanesa que negociou a reabertura, em Kosovo, das universidades que usavam a língua albanesa. Encontrou-se várias vezes com Milosevic naquele ano. Ao descrever uma das reuniões, Bakali declarou: "Eu disse a ele: ´Você está matando mulheres e crianças´, referindo-se à ação policial no povoado de Prekaz, no qual mais de 40 membros da família Jashari morreram, no início de 1998. De acordo com Bakali, Milosevic respondeu: "Estamos combatendo o terrorismo." Ele disse que a polícia havia dado aos moradores um prazo de "duas horas para que fugissem, mas isto não aconteceu". "Milosevic soube do incidente", disse Bakali.

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