Milosevic diz não reconhecer tribunal da ONU

Falando pela primeira vez desde o início na terça-feira do julgamento por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional (TPII) para a ex-Iugoslávia, o ex-presidente Slobodan Milosevic voltou a contestar a competência da corte para julgá-lo e disse estar sendo vítima de um linchamento. "Não reconheço a legitimidade deste tribunal", insistiu o ex-líder sérvio, dirigindo-se ao presidente do TPII, o juiz britânico Richard May. Depois, olhando para a promotora-chefe, a suíça Carla Del Ponte afirmou: "Você já ditou a sentença."A promotora, que havia aberto o segundo dia de trabalhos do tribunal descrevendo cenas do massacre de albaneses de Kosovo em 1999 por parte das tropas sérvias, manifestou surpresa e afastou-se.Milosevic fez os comentários depois de abrir mão de uma autorização para fazer o pronunciamento inicial, o que deverá ocorrer nesta quinta-feira. Segundo seus assessores será um longo discurso. O ex-líder sérvios fará a própria defesa. Ele se recusou a nomear advogados por não reconhecer o TPII.Em resposta às críticas do réu, o juiz May lembrou que Milosevic teve chances para apelar durante as audiências preliminares. "Agora, é muito tarde", disse o magistrado. "Sua opinião sobre este tribunal é completamente irrelevante".O ex-dirigente iugoslavo destacou que a detenção em Belgrado e posterior entrega ao TPII em junho foram atos ilegais, que violaram a constituição iugoslava. E, com esse argumento, reforçou as objeções à corte internacional, criada pela ONU.Milosevic é acusado de genocídio no conflito bósnio e crimes contra a humanidade e de guerra na Croácia e em Kosovo. Antes das intervenções dele, os promotores exibiram fotos de massacres atribuídos aos sérvios na campanha de limpeza étnica contra os não-sérvios e filmes com cenas de campos de concentração que classificaram de provas contra Milosevic, na época presidente da Iugoslávia.O vice-promotor Dirk Ryneveld acusou Milosevic de instigar e comandar "execuções em massa (de croatas, muçulmanos e albaneses étnicos de Kosovo), num processos sistemático".Em Pristina, o líder albanês étnico Ibrahim Rogova, colocou-se à disposição do TPII para testemunhar contra o ex-presidente iugoslavo. "Esse julgamento é um evento muito importante que só traz satisfação aos kosovares", disse.

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