Milosevic diz que estava combatendo terrorismo

O ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic tomou a ofensiva em seu julgamento por crimes de guerra nesta quinta-feira, afirmando que os países ocidentais tentaram levar a Iugoslávia de volta à Idade da Pedra e estão promovendo um julgamento político contra ele. Na sua primeira oportunidade para falar em defesa própria, o ex-presidente iugoslavo argumentou ter tentado evitar vítimas civis durante as guerras balcânicas. Também afirmou ter travado uma campanha legítima contra terroristas que tentavam desestabilizar seu país e que nada sabia sobre os campos de concentração bósnios sérvios.Depois de ter ficado sentado dois dias, sem descanso, escutando as alegações da promotoria de que ele planejou assassinatos, estupros e expulsões, Milosevic definiu as acusações da promotoria como "invenções". Batendo na sua escrivaninha e mexendo os braços com energia, Milosevic disse aos promotores: "Basicamente, vocês não têm nada. Querem apenas inventar coisas. Este é um julgamento político, e não tem nada a ver com a lei em si."Milosevic, de 60 anos, pode ser condenado à prisão perpétua caso seja considerado culpado pelos 66 crimes dos quais é acusado, naquele que é visto como o mais importante julgamento de crimes de guerra desde a Segunda Guerra Mundial. Os promotores afirmam que ele é responsável por uma década de violência nos Bálcãs, depois da desintegração da Iugoslávia. Eles o indiciaram por crimes contra a humanidade na Croácia e em Kosovo, e por genocídio na guerra da Bósnia (1992-95).Milosevic acusou as potências ocidentais de bombardear seu país de forma criminosa, numa campanha de 78 dias em 1999, que expulsou as forças iugoslavas da província sérvia de Kosovo. A pedido de Milosevic, um funcionário do tribunal mostrou dezenas de fotografias de corpos queimados, cadáveres decapitados, vilarejos e pontes destruídas."Somente os nazistas poderiam ter pensado num bombardeamento desta envergadura nos povoados. O objetivo da agressão era, sem dúvida, acabar com toda a nação, levar a Sérvia de volta à Idade da Pedra", disse ele, enquanto as imagens sombrias eram exibidas uma após a outra. "Isto é mais uma prova da colaboração das forças da Otan e desta força terrorista que foi usada para desestabilizar a Iugoslávia", afirmou, referindo-se ao grupo rebelde Exército de Libertação de Kosovo. Entre as fotos mais chocantes havia uma que retratava os mortos que estavam num comboio de refugiados atingido por bombas da Otan no dia 14 de abril de 1999. "Eram camponeses, fazendeiros, mães e filhas", disse Milosevic. "Foram atingidos de propósito, porque estavam voltando para seu povoado", argumentou, classificando como "mentiras" da Otan, segundo as quais eles estavam fugindo das forças sérvias. Ao responder às alegações de Milosevic, o dirigente da Otan afirmou que o réu tem o direito de dizer o que lhe vem à mente, mas acrescentou que ele não tem o direito de escapar da Justiça distorcendo a campanha de bombardeios sobre a Iugoslávia, levada adiante pela organização em 1999."Milosevic pode falar o que quiser. Afinal de contas, ele está sendo julgado por algumas das mais sérias acusações já feitas contra alguém desde a Segunda Guerra Mundial", declarou o secretário-geral da Otan, George Robertson, durante uma visita à Polônia.A acusação de que os bombardeios da Otan constituíram um crime de guerra foi investigada e refutada em junho de 2000, por um comitê indicado pela promotora chefe. No acidente ocorrido com o comboio de refugiados, o comitê criticou o piloto, por ele não ter sido capaz de identificar os alvos civis. Mas concluiu que a morte de civis não foi deliberada e que as acusações de crime eram infundadas. Milosevic solicitou novamente aos juízes para que o libertem, de modo a permitir-lhe preparar melhor a sua defesa, prometendo que não iria tentar fugir.

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