Milosevic está orgulhoso do que fez

"Estou orgulhoso do que fiz e continuarei lutando por meus ideais", declarou nesta quinta-feira o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic a um deputado comunista grego que o visitou em sua cela numa prisão perto da capital, pouco antes de ser entregue ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, onde é acusado de crimes de guerra. "Jamais trocaria esta cela por um posto num governo a serviço de interesses estrangeiros."Num comício no início de sua carreira, Milosevic chegou a reunir um milhão de sérvios. Na véspera de sua extradição, apenas cerca de 2.000 pessoas saíram às ruas de Belgrado em sua defesa.A estrela de Milosevic apagou-se, na realidade, em 5 de outubro de 2000, quando mais de 300 mil sérvios vindos de todas as partes da república "invadiram" a capital para fazê-lo aceitar o resultado das eleições presidenciais, que davam vitória a Vojislav Kostunica.Em abril, por pressão internacional, ele foi detido pela polícia sob a acusação de abuso de poder, homicídios e corrupção.As crônicas políticas sérvias pintam Milosevic, filho de um padre ortodoxo e de uma professora comunista (ambos suicidas), como uma espécie de eminência parda - um burocrata que se fez à sombra do ex-presidente sérvio Ivan Stambolic, que o considerava "como filho".Distanciando-se do comunismo sem separar-se da mulher, a líder comunista Mirjana Markovic, Milosevic abraçou o nacionalismo.Estabeleceu as bases para a criação do Partido Socialista Sérvio afastou-se do padrinho, instaurou um pluralismo partidário formal (para legitimar o regime) e lançou a pedra da "Grande Sérvia".Assim, começou a implodir a Iugoslávia, criada por Tito.Em 1989, revogou a autonomia de Kosovo (de maioria albanesa) e de Vojvodina. E, com sua política de expansionismo sérvio, provocou o desmembramento da antiga Iugoslávia.Em sangrentas guerras entre 1991 e 1995, Bósnia, Croácia, Eslovênia e Macedônia separam-se da Iugoslávia. Foi no conflito da Bósnia - onde 40% da população é de origem sérvia - que Milosevic teve seu nome associado à campanha de limpeza étnica, que custou a vida de pelo menos 200.000 civis.A mesma política de extermínio e terror repetiu-se em 1999 em Kosovo, resultando nos bombardeios aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos Estados Unidos, e a ocupação internacional da província.

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