Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Minas ilegais espalham malária na Venezuela

Com a crise econômica, milhares saem em busca de ouro na selva, trazendo para as cidades a doença que o país erradicara nos anos 60

O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2016 | 05h00

MINA ALBINO, VENEZUELA - Ao contrair sua 12.ª malária, Reinaldo Balocha mal pôde descansar. Ainda tremendo de febre, pôs a picareta no ombro e voltou ao trabalho – quebrar pedra numa mina de ouro ilegal. Técnico em computação numa cidade grande, Reinaldo não é bem o que se espera de um mineiro. Suas mãos macias são mais apropriadas para teclados que para mexer com terra e pedra. 

Mas com a economia venezuelana em colapso a inflação zerou seu salário e sua esperança de manter um padrão de vida de classe média. Assim, como dezenas de milhares de pessoas de todo o país, Reinaldo acabou numa dessas minas pantanosas, em plena selva, em busca de algum futuro. 

Aqui, garçons, empregados de escritório, taxistas, gente com curso superior e até funcionários públicos em férias garimpam ouro para ser vendido no mercado negro, sob os olhos vigilantes de guardas armados que os sobrecarregam de trabalho e ameaçam amarrá-los a postes em caso de desobediência.

A mina é um lugar em que pessoas instruídas que tiveram de deixar empregos urbanos confortáveis rebentam as costas numa atividade perigosa, em poços cheios de lama, lutando para o ganho chegar até o fim do mês. Isso acrescido de um preço cruel: a malária, que, há muito empurrada para os limites do país, volta para assombrar as minas com fúria vingativa.

A Venezuela foi o primeiro país do mundo a ganhar da Organização Mundial de Saúde o certificado de erradicação da malária de suas áreas mais populosas, em 1961, vencendo nessa corrida os Estados Unidos e outras nações desenvolvidas.

Foi uma enorme conquista de um pequeno país, ajudando a impulsionar o desenvolvimento da Venezuela como potência petrolífera e alimentando esperanças mundiais de que um modelo para erradicar a malária estivesse disponível. Mas na Venezuela o relógio vem andando para trás.

A crise econômica trouxe de volta a malária, tirando-a das regiões remotas onde se mantinha quieta para espalhá-la pelo país em níveis não vistos havia 75 anos, segundo especialistas.

Tudo começou nas minas. Com a economia em frangalhos, pelo menos 70 mil pessoas de todas as classes sociais fluíram para a região mineira no ano passado, diz Jorge Moreno, especialista venezuelano no mosquito transmissor da doença. Com a doença no sangue, os novos mineiros voltam para a vida nas cidades. Mas faltam remédios e fumigação para impedir que os mosquitos que morderam os infectados contaminem outras dezenas de milhares de pessoas.

Nos órgãos oficiais, o alastramento da malária é tratado como segredo de Estado. O governo não divulgou relatórios epidemiológicos sobre a doença no ano passado e diz que não há crise. Mas dados internos obtidos de médicos pelo New York Times confirmam um surto em andamento. No primeiro semestre deste ano, os casos de malária aumentaram 72%, com um total de 125 mil atingidos, segundo os médicos. A doença é encontrada em mais da metade dos 23 Estados venezuelanos. E entre as cepas presentes está o Plasmodium falciparum, parasita que causa o tipo mais mortífero de malária. “É uma situação de vergonha nacional”, diz o médico José Oletta, ex-ministro da Saúde que vive em Caracas, onde já surgiram casos da doença.

Gustavo Bretas, especialista brasileiro em malária, diz que a Venezuela antes treinava pessoal na região fronteiriça para prevenção da doença. Mas a incapacidade venezuelana em conter o próprio surto levou hoje o país a um papel contrário: passou a ser uma ameaça para os países vizinhos, particularmente o Brasil, onde também existem minas de ouro ilegais. “Está começando a passar para os vizinhos”, diz Bretas, acrescentando que a falta de estatísticas oficiais dificulta a avaliação do problema. / NYT

 

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