Minas ''informais'' ampliam risco de isolamento dos 33 se repetir no Chile

A tragédia na mina chilena de San José - na qual 33 trabalhadores ficaram soterrados a quase 700 metros de profundidade durante 70 dias - pode se repetir, com consequências fatais, em 15% das 20 mil minas mapeadas do Chile, nas quais mais de 2 mil mineradores estão trabalhando neste momento.

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

O alerta foi feito por alguns dos maiores especialistas em engenharia de mineração e líderes sindicais chilenos entrevistados pelo Estado. "É seguro que essa tragédia pode se repetir num grau ainda muito maior, se as coisas continuarem como estão", disse o diretor do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade do Chile, Aldo Casali. "Simplesmente não há como fiscalizar todas as pequenas minas que funcionam nos locais mais remotos do país."

O último mineiro a ser resgatado na mina San José, na quarta-feira, Luis Urzúa, foi taxativo em seu encontro com o presidente chileno Sebastián Piñera: "espero que isso nunca mais se repita", disse, olhando nos olhos do presidente. Piñera prometeu uma revisão completa nas regras do setor. Mas poucas horas depois de Urzúa voltar a respirar na superfície, outro mineiro, de 26 anos, morreu num acidente de trabalho na mina Botón de Oro, na Quinta Região, de Valparaíso. Ele foi o 35.º mineiro chileno a morrer em serviço este ano.

O Chile responde por 40% do cobre comercializado no mundo. A exploração desta valiosa commodity fica quase toda nas mãos de grandes empresas mineradoras, especialmente a estatal Codelco, uma espécie de "Petrobrás do cobre" chilena. "O risco está nas pequenas empresas, formadas, às vezes, por grupos de cinco ou seis pessoas. Muitas delas nem têm licença e vendem clandestinamente o minério para empresas maiores", disse o presidente da Federação dos Trabalhadores do Cobre (FTC), Raimundo Espinoza Concha.

Cobiça. O preço da libra (454 gramas) do cobre, que em 1993 era de US$ 0,65, passa hoje de US$ 3,50. A disparada - motivada pelo aumento do consumo mundial, especialmente da China - faz com que milhares de mineradores de pequenas e médias empresas arrisquem suas vidas em locais precários. "A mina San José era ruim, mas perto das outras pequenas e médias que surgem do dia para a noite, é um luxo", disse Espinoza. "E não basta fiscalizar e fechar. É preciso resolver uma equação complexa na qual estes empreendimentos aparecem muitas vezes como a única fonte de renda de cidades inteiras", alerta o professor Casali.

A ONG de direitos humanos Anistia Internacional aproveitou a euforia do resgate em Atacama para criticar duramente o governo chileno por sequer ter ratificado a convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre saúde e segurança no trabalho de mineração.

Ao não assinar a convenção, o governo "contribui para perpetuar as profundas injustiças e abusos contra os direitos humanos dos trabalhadores, que atuam normalmente em condições muito precárias de saúde e segurança, agravados pelo controle precário sobre o setor, que sofre com a destinação de recursos escassos do Estado", diz o comunicado da Anistia.

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