AFP PHOTO / MUNIR UZ ZAMAN
AFP PHOTO / MUNIR UZ ZAMAN

Minas terrestres, mais um flagelo do êxodo dos rohingyas

Bangladesh acusa Exército birmanês de instalar equipamentos - recurso proibido na maioria dos países pela Convenção de Ottawa de 1997, do qual Mianmar não é signatário - para para impedir minoria muçulmana de voltar para suas casas

O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2017 | 16h16

COX'S BAZAR, BANGLADESH - Em suas últimas horas, Azizul Haque sequer tinha forças para gritar de dor enquanto lutava por sua vida, com o corpo mutilado por uma mina antipessoal colocada no perigoso caminho do êxodo dos rohingyas.

Alongando-se em um leito de hospital em Bangladesh, não muito distante da fronteira com Mianmar, o adolescente de 15 anos estava tão fraco que mal conseguia pedir à mãe que lhe desse um pouco de suco. Esta, por sua vez, não tinha dinheiro para comprar nem mesmo isso.

Enfaixado dos pés à cabeça, o corpo marcado pelos ferimentos causados pelos fragmentos da deflagração, Azizul perdeu as duas pernas e parte da mão na explosão de uma mina. Ele era mais um no fluxo de centenas de milhares de muçulmanos rohingyas a caminho de Bangladesh. Todos fugiam da violência no oeste de Mianmar.

O adolescente não resistiu e faleceu na madrugada desta quinta. Sua família fugia de seu povoado de Debinna, no Estado birmanês de Rakhine, e estava perto da fronteira cercada por arame farpado de Bangladesh, quando o rapaz deu o passo fatal.

"Ouvimos uma enorme explosão, quando Azizul caminhou sobre uma mina", contou sua mãe, Rashida Begum, aos prantos, a seu lado. "Eu vi suas duas pernas arrancadas", continuou.

"Todo mundo estava com pressa. Ninguém podia se preocupar com o outro, porque os birmaneses estavam perseguindo a gente logo atrás e iam queimando os povoados", completou Rashida, mãe de quatro filhos.

Embora os relatos de massacres, torturas e estupros coletivos tenham se tornado corrente entre os refugiados rohingyas, as minas antipessoais instaladas em sua rota de fuga aprofundam o calvário dessa minoria muçulmana perseguida há décadas.

Perseguição sistemática

Segundo autoridades de alto escalão do governo bengali, essas minas foram colocadas pelas forças birmanesas para impedir os rohingyas de voltarem para suas casas. O recurso a esse tipo de armamento é proibido na maioria dos países pela Convenção de Ottawa de 1997, mas Mianmar não é signatário deste acordo.

"Todas as informações apontam para as forças de segurança de Mianmar, visando, deliberadamente, a pontos de passagem usados pelos refugiados rohingyas", denunciou Tirana Hassan, da Anistia Internacional. "É uma maneira cruel e sem coração de agravar o destino de pessoas que fogem de uma campanha de perseguição sistemática."

Essa onda de violência assola Rakhine desde o fim de agosto, quando o Exército lançou uma ofensiva brutal de repressão na esteira dos ataques de uma jovem rebelião rohingya.

Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU exigiu de Naypyidaw "passos imediatos" para acabar com a limpeza étnica que levou 380 mil rohingyas a buscar abrigo no vizinho Bangladesh, provocando uma grave crise humanitária.


A líder birmanesa e vencedora do Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, está sendo duramente criticada pela comunidade internacional por sua posição ambígua sobre o destino dessa comunidade. Ela anunciou um pronunciamento sobre o tema para a próxima semana.

Na sala onde Azizul Haque agonizava, pelo menos 20 rohingyas recebiam cuidados por ferimentos a bala, por explosões, ou por queimaduras.

Sabekun Nahar, de 50 anos, foi atingida nas pernas, depois de, provavelmente, passar por uma mina não muito longe do lugar que custou a vida de Azizul. "Não sei se poderei voltar a andar algum dia", desabafou, com lágrimas nos olhos.

Não terroristas

Os rohingyas negaram nesta quinta-feira qualquer ajuda procedente de organizações terroristas internacionais. "Não temos nenhum vínculo com Al-Qaeda, Estado Islâmico ou qualquer outro grupo terrorista internacional. E não queremos que estes grupos se envolvam no conflito em Arakan (antigo nome do Estado de Rakhine)", escreveu nesta quinta-feira o Exército de Salvação Rohingya de Arakan (Arsa) em um comunicado divulgado no Twitter.

De acordo com o SITE, grupo que monitora grupos jihadistas, a Al-Qaeda pediu esta semana aos muçulmanos que "apoiem os rohingyas financeira e militarmente". Uma ajuda claramente rejeitada pela rebelião rohingya que "pede aos Estados da região que interceptem e impeçam a entrada no Estado de terroristas que só poderiam piorar a situação".

No domingo, o Arsa, mais conhecido pelo nome Harakah al Yaqin ("Movimento da Fé", em árabe), anunciou uma trégua de um mês em suas ofensivas militares para permitir a distribuição de ajuda humanitária. / AFP

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