Mineiro chileno teria previsto acidente

Trabalhadores deram alerta sobre risco de desabamento, mas foram proibidos de abandonar o local onde acabaram soterrados por 70 dias

, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

SANTIAGO

Os responsáveis pela Mina San José, onde 33 mineiros ficaram presos por 70 dias, a quase 700 metros de profundidade, teriam sido alertados três horas antes do desastre sobre o risco de um deslizamento bloquear as saídas. Mesmo assim, o grupo não recebeu permissão para deixar a mina. A revelação foi feita ontem pelo mineiro chileno Juan Illanes - um dos 33 sobreviventes - a um membro da comissão que investiga o caso.

De acordo com Carlos Vilches - deputado governista pela cidade de Copiapó, que fica a 50 quilômetros do local do acidente -, o mineiro resgatado disse ter ouvido fortes ruídos no interior da mina, pouco antes do desastre, em 5 de agosto. Vilches informou que convocará Illanes para repetir seu testemunho aos membros da comissão.  

 

 

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Em julho, a Mina San José já havia sofrido um deslizamento semelhante ao de agosto, provocando a amputação de uma perna do minerador Gino Cortéz. Os dois proprietários da empresa mineradora e os chefes do serviço de exploração mineral já estão sendo processados pelo acidente.

"É simplesmente inconcebível que, mesmo diante da advertência dos mineiros, não tenham sido tomadas as medidas para prevenir o acidente e evitar que eles estivessem na mina quando ocorreu o deslizamento", disse o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter.

A empresa San Esteban, proprietária da Mina San José, disse que não comentará o assunto, mas já estuda uma estratégia de defesa para o caso.

Morte certa. Uma semana depois do resgate na Mina San José, os 33 mineiros continuam revelando aos poucos os detalhes dos 70 dias de angústia e incerteza vividos sob a terra.

Ontem, o mineiro Yonni Barrios, de 50 anos, disse que o grupo quase perdeu a esperança de ser resgatado com vida, principalmente nos 17 dias que antecederam ao primeiro contato com a superfície.

"O que nós sempre pensávamos era por que ainda não tínhamos morrido, por que ainda estávamos vivos", disse Barrios à agência de notícias Reuters, usando ainda os óculos de sol especiais que foram entregues aos mineiros antes de eles voltarem à superfície. "Era cruel a ideia de continuar vivo lá embaixo e ir morrendo aos poucos de desnutrição, enquanto nossa comida ia chegando ao fim", disse.

Barrios - que trabalha em minas de cobre e ouro no norte do Chile desde os 17 anos - também revelou que os mineiros estavam conformados com a morte iminente. "Todos nós já tínhamos aceitado o fato de que, se não fôssemos resgatados, morreríamos. E se tínhamos de morrer, então, tínhamos de morrer. Isso era tudo o que nos restava", disse o mineiro que ficou conhecido tanto como enfermeiro do grupo quanto protagonista de uma disputa entre a mulher dele e a amante, Susana Valenzuela - que, após o resgate, deu várias entrevistas enaltecendo qualidades íntimas de Barrios, a quem chama de "Tarzan".

Ele negou que os mineiros tivessem se agredido antes do resgate. "Houve discussões. Isso é normal. Mas nunca houve conflito físico entre duas pessoas porque isso é uma coisa que nós tentamos evitar de todas as formas, pois sabíamos que, uma vez que ocorresse, alteraria definitivamente a dinâmica do grupo." / REUTERS, EFE e AP

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