Jim Urquhart/Reuters
Jim Urquhart/Reuters

Mineiro começa hoje sua quinta tentativa de 'sonho americano'

Técnico em computação voa desta vez sem a família para o México; no primeiro intento, em 2004, foi deportado

André Manteufel, Especial para o Estadão

03 de outubro de 2021 | 05h09
Atualizado 07 de outubro de 2021 | 10h40

GOVERNADOR VALADARES - Pela quinta vez, o técnico em computação Cléber (em função de anonimato pedido por ele, o nome é fictício) tentará hoje mudar de vida, com o objetivo de entrar nos EUA. Ele embarca para o México disposto a ir até a cidade de Mexicali, na fronteira.

Sua primeira tentativa ocorreu em 2004. Aos 15 anos, sonhava em ter "um carrão". E viu no sonho americano a chance de isso acontecer. Ele fez um trajeto diferente daquele adotado por muitos migrantes que saem de Governador Valadares, no leste de Minas. Seu percurso durou cerca de três anos, partindo por terra do Panamá, em um grupo de 500 pessoas.

Ao longo do percurso, foi conduzido na carroceria de um caminhão com mais de 100 pessoas a bordo e numa caminhonete com 30 ocupantes. A pior parte, segundo ele, foi ter se hospedado com 20 imigrantes num quartinho do tamanho de um pequeno banheiro. "A gente dormia enfileirado no chão. Um ao lado do outro. E alguns ficavam em pé, porque não tinha espaço pra todo mundo", relata. "Chegamos a ficar dois dias sem comida", recorda.

A travessia foi feita por Ciudad Juárez, separada pela fronteira de El Paso, já no país vizinho. O final foi infeliz. O grupo foi preso e Cléber foi conduzido a uma ala especial. "Tiraram foto minha, fizeram leitura da minha íris, queriam saber quais vacinas eu já tinha tomado", afirma. Após alguns meses, a seu próprio pedido, foi deportado, com proibição de ingressar nos EUA pelos 10 anos seguintes.

Recentemente, já casado e com os dois filhos, viu uma nova chance de entrar. "A lei mudou. Hoje, se atravessar a fronteira com criança eles te liberam. A família automaticamente ganha asilo. Você pode trabalhar, viajar pra onde quiser dentro do país, viver normalmente, tirar documento. Aí eles vão dando prazo, e você fica aguardando uma audiência com o juiz pra saber se pode ficar ou se tem que sair. Mas isso pode demorar até alguns anos", sustenta. Em regra, uma minoria consegue de fato acolhimento nos EUA.

Nos últimos sete meses, ele tentou três vezes, pela capital mexicana e por Cancún. Foi com mulher e os dois filhos – um de 8 e outro de 2 anos. Como foi alvo de deportação na primeira vez, não conseguiu avançar. Hoje, a estratégia do coiote é enviá-lo sozinho. Se ele entrar finalmente no México, a família embarcará. "Por mim eu já desistia. Mas no contrato que firmamos com o coiote, demos nossa casa e o lote como garantias. Se ele desistir, tudo bem. Mas se a gente abrir mão, ele fica com tudo. Vamos continuar tentando."

 

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