Mineiro russo lembra os dias terríveis sob a terra

Na escuridão absoluta, a 100 metros sob a terra, o mineiro Valery Grabovsky, de 50 anos, escutava apenas dois sons: a respiração de seus companheiros e explosões surdas, distantes. Um era tranquilizador. O outro, aterrorizante.As explosões traziam boas notícias ? eram sinais de que as equipes de resgate trabalhavam para abrir caminho até a passagem onde Grabovsky e outros doze mineiros estavam soterrados, há quase uma semana. Mas era o som da respiração entrecortada dos companheiros que o preocupava ? era sinal de que o oxigênio estava no fim.?Sabíamos que se a situação do oxigênio não melhorasse e se o fluxo d?água não se estancasse, nos restariam apenas cinco ou seis horas", conta, agora.?Durante todo o tempo achei que nos encontrariam...?Por um momento, Grabovsky deixa aflorar a emoção.?Eu pedia a Deus que me escutasse e me ajudasse a tomar as decisões adequadas?, diz com lágrimas nos olhos.Grobovsky, um mineiro de 50 anos, era um dos 71 homens que trabalhavam na mina Zapadnaya, no sul da Rússia, naquele dia, 23 de outubro, quando um lago subterrâneo invadiu as galerias em que estavam. Vinte e cinco conseguiram sair, mas 46 ficaram presos. Dois dias depois, 33 foram resgatados. Restaram os 13.Lá em cima, não se sabia onde eles poderiam estar. Nem se estavam vivos, mas as equipes de resgates trabalhavam sem cessar, cavando um túnel a partir de uma mina adjacente, chamada Komsomolskaya Pravda.Grabovsky se preocupava com o ar, com a água e com a comida, mas havia algo mais: ?Pensava o tempo todo que era o mais velho e era responsável não só por mim mesmo como por meus companheiros", diz.Ele guiou os outros, mostrou-lhes como economizar as baterias e o oxigênio de seus equipamentos, dissuadiu os que queriam procurar saídas por corredores estreitos. Tinha de evitar que os outros caíssem em desespero. De acordo com o testemunho dos colegas, foi muito bom nisso.?Grabovsky nos sustentou?, disse o mineiro Vladimir Nertekhin ao jornal Izvestia.Mas não foi fácil. Quatro mineiros decidiram, num dos dias, procurar uma saída. ?Eu não estava de acordo, mas não mês escutaram?, diz.?Depois de algumas horas, um deles voltou, completamente gelado. Tivemos de aquecê-lo e dar-lhe oxigênio.?Os outros não voltaram.Na manhã de quarta-feira, ao escutar as explosões mais próximas, Grabovsky reuniu os homens restantes e dirigiram-se ao local de onde vinham as explosões. Cem metros a frente, acharam dois mineiros dos que haviam tentado sair, empapados e quase sem sentido por falta de ar. Junto deles, o cadáver do outro mineiro, que a corrente havia jogado contra a parede.?Então me pareceu que vira uma luz. Parei e gritei?, conta. ?Corri e vi dois mineiros com máscaras antigas.?Estavam salvos.

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