Minério afegão já atrai investidores

Cerca de 200 mineradoras mostram interesse em explorar minas cujas riquezas podem valer até US$ 3 trilhões, segundo estimativas

Alissa Rubin e Mujib Mashal, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

O Ministério de Minas do Afeganistão anunciou que pretende abrir as reservas do país a investidores internacionais durante a reunião que ocorre esta semana na Grã-Bretanha. O país enfrenta um misto de esperança e dúvida em relação ao compromisso do governo com a exploração da riqueza mineral recém-descoberta no país.

A pauta da reunião deve se concentrar na região de Hajigak, na Província de Bamian, onde foram encontradas imensas reservas de minério de ferro, disse o ministro de Minas, Wahidullah Shahrani, durante entrevista coletiva na semana passada.

Foi a primeira aparição pública de Shahrani desde que foi divulgada a descoberta de uma riqueza mineral avaliada em US$ 1 trilhão em reservas inexploradas com a publicação de um artigo na semana passada no jornal The New York Times. O texto detalhava a descoberta do Pentágono e do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Funcionários do governo afegão descreveram como conservadora a estimativa de US$ 1 trilhão e disseram que, de acordo com sua avaliação, as reservas minerais poderiam valer até US$ 3 trilhões. "São boas notícias com o potencial de valorizar muito a economia afegã e servir ao desenvolvimento do país", disse Shahrani.

Antes desconhecidos, os depósitos incluem imensas reservas de ferro, cobre, cobalto, ouro e materiais industriais de altíssima importância, como o lítio. Com o grande número de minerais considerados essenciais para a indústria moderna, o Afeganistão pode se transformar num dos mais importantes centros mundiais de mineração, segundo funcionários do governo americano.

Duzentos investidores do setor de mineração de todo o mundo foram convidados para participar da reunião em Londres, onde farão propostas de exploração dos depósitos de minério de ferro em Hajiak, disse Craig Andrews, principal especialista em mineração do Banco Mundial para o Afeganistão.

Em seguida, o ministério deve preparar uma oferta de investimentos para a região. É possível, por exemplo, que o governo exija que os interessados invistam tanto em instalações siderúrgicas quanto nas minas de ferro, já que há também depósitos de carvão nas imediações, disse Andrews.

Até setembro, o governo espera poder solicitar das empresas mineradoras declarações de interesse e, com sorte, reduzir a partir de dezembro o número de empresas investidoras para cinco ou seis, todas dotadas da capacidade de desenvolver um projeto tão grandioso.

Especialistas ocidentais em mineração sem vínculos com o governo afegão ajudarão o ministério a preparar o processo de licitação, disse Andrews.

Transparência. Shahrani prometeu que o processo de licitação e a terceirização dos direitos de mineração ocorrerão da forma mais transparente possível, para reduzir a possibilidade de corrupção, um dos principais problemas do governo afegão.

O ministro disse ainda que o governo publicará os contratos fechados com as empresas escolhidas em sua página na internet e tentará manter os repórteres informados, assim como o público. Cópias dos contratos serão colocadas à disposição dos parlamentares e aos membros da sociedade civil.

Shahrani e seus conselheiros alertaram contra a criação de expectativas excessivamente altas, sublinhando que a exploração e o desenvolvimento são processos que levam anos para mostrar resultados.

O ministro ressaltou que há muitos obstáculos a serem superados, como a falta de segurança em algumas das áreas de maior riqueza mineral e a falta de uma infraestrutura de transporte.

Em Cabul, estudantes e comerciantes disseram pensar que o governo dispõe da capacidade de finalmente abrir as minas para exploração, mas não sem a ajuda de estrangeiros.

"O governo atual não dispõe da capacidade de aplicar projetos tão grandiosos - seja do ponto de vista administrativo, seja em termos de segurança", disse Ghulam Hazrat, dono de uma loja de autopeças.

Hazrat mostrou o dedo indicador da mão direita, deformado por causa dos confrontos com os soviéticos na década de 80; mostrou duas cicatrizes na perna e uma no peito, da época em que os senhores da guerra disputavam entre si o controle do país, no início da década de 90.

"Como eu, milhares de pessoas fizeram sacrifícios ao longo de suas vidas. Mas estou certo de que não verei os benefícios proporcionados por tais minas antes de morrer. Não sei se um dia meus filhos serão beneficiados por esses recursos."

Abdul Rahman Ashraf, conselheiro do ministro, fez um comentário parecido quando um jovem repórter perguntou a ele durante a entrevista coletiva se a geração atual chegaria a sentir na pele o benefício da exploração das reservas minerais.

"Esta geração pode pensar que não gastará esta quantia de US$ 3 trilhões, mas seus filhos, netos e bisnetos terão direitos sobre as reservas", disse ele. "Precisamos aprender a usar estes recursos."

Faisal Farooqi, que cursa o primeiro ano de direito e ciência política na Universidade de Cabul, mostrou-se mais otimista, dizendo que as reservas minerais e a atenção mundial sobre elas são algo que o país deve explorar em benefício próprio.

"É hora de mostrarmos o desejo" de se apoderar de tamanha riqueza, disse ele. "Trata-se de uma oportunidade para sairmos da miséria, e devemos agarrá-la com as duas mãos - mesmo que nossas mãos estejam trêmulas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.