Minha filha foi morta ao vivo

Pai de repórter assassinada nos Estados Unidos durante transmissão lutará por restrição às armas

Andy Parker, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2015 | 02h01

Na quarta-feira, minha filha Alison foi brutalmente assassinada na plenitude da sua vida por um homem armado transtornado. Desde então, tenho dito em inúmeras entrevistas à mídia local, nacional e internacional que dedicarei a minha vida a trabalhar para que sejam adotadas salvaguardas justas e eficazes para que casos desse tipo não ocorram novamente.

Nos últimos anos presenciamos tragédias similares exibidas na televisão. Os tiros contra uma deputada no Arizona, o massacre de alunos de uma escola em Connecticut e de fiéis em uma igreja na Carolina do Sul. Precisamos nos perguntar: o que temos de fazer para pôr fim a essa insanidade?

No meu caso a resposta é essa: "tudo o que for necessário". Pretendo devotar todas as minhas forças e recursos para que alguma coisa boa resulte desse infortúnio. Percebo a magnitude da força contrária às restrições realistas e viáveis no caso da compra de dispositivos que têm um único objetivo: matar.

Isso quer dizer que temos de concentrar a atenção nos legisladores responsáveis pelas frágeis leis sobre armas nos EUA, que facilitam o acesso de indivíduos perigosos às armas de fogo.

Legisladores como o republicano Bob Goodlatte, deputado por Virgínia, representante de Roanoke, onde ocorreu o assassinato de minha filha e do seu colega Adam Ward diante das câmeras de TV. Em seus mais de dois anos como presidente da Comissão Judiciária da Câmara, Goodlatte teve inúmeras oportunidades de levar a debate legislação contemplando a exigência de atestado de antecedentes e outros projetos legais cujo objetivo é prevenir a violência pelas armas. Goodlatte rejeitou tomar qualquer iniciativa e não fez absolutamente nada para ajudar a refrear a carnificina que estamos observando. Por outro lado, o deputado não viu nenhum problema em receber seu cheque da Associação Nacional do Rifle durante a campanha eleitoral de 2014. Vergonhoso.

No plano estadual, estamos falando de parlamentares do Estado de Virgínia, como o democrata John S. Edwards, de Roanoke, que representa a área onde Alison e Adam viviam, e o republicano William M. Stanley Jr., de Franklin, representante do distrito onde vivo. A região de Roanoke abrange também o câmpus da Virginia Tech, então, ele tem plena consciência de como é fácil para indivíduos mental e perigosamente doentes adquirirem armas no Estado. Mas, nos seus quase 20 anos no Senado, ele tem votado constantemente contra uma revisão das leis sobre armas e um exame mais amplo dos antecedentes de um indivíduo e também não vota com seus colegas do Partido Democrata de Virgínia.

Este ano, Edwards e Stanley tiveram a oportunidade de votar a favor da SB 1429, projeto de lei defendido pelo senador George L. Barker, democrata de Fairfax, que instituiria uma medida cautelar cujo objetivo seria lutar contra as armas na Virgínia. O projeto, cuja sigla em inglês é GVRO, levaria a uma reforma de vida ou morte, permitindo a membros de uma família e/ou à polícia requerer a um juiz para ordenar a remoção temporária de armas de fogo em mãos de um indivíduo em crise. A polícia foi pela primeira vez autorizada a isso na Califórnia, depois do trágico assassinato em massa ocorrido em Isla Vista no ano passado. Os pais de Elliot Rodger, o atirador, solicitaram à polícia uma inspeção na residência de seu filho, pois acreditavam que ele era uma ameaça potencial. O resultado foi desastroso. Pessoas morreram sem nenhuma razão. Certamente nenhuma razão que aqueles que fundaram nosso país teriam apoiado.

Os parlamentares da Califórnia não perderam tempo e adotaram medidas cruciais para impedir uma próxima tragédia. Mas quando Edwards e Stanley tiveram a oportunidade de mudar as regras do jogo e promover medidas similares no Estado de Virgínia, preferiram servir seus senhores do lobby das armas e votaram não. Vergonhoso.

Naturalmente, não temos como saber se, com tais medidas, o resultado teria sido diferente no caso de Alison e Adam. Não sabemos se a família do atirador Vester L. Flanagan estava ciente de algum problema. Nem sabemos se a eliminação de armas de fogo não o teria levado a usar outros meios.

No fim de semana antes de sua morte, Alison fazia rafting no Rio Nantahala com sua mãe, seu namorado, Chris, sua amiga Katy e eu. Era seu lugar favorito. Ela era uma canoista brilhante e esse esporte é uma tradição da família. Sempre repetíamos entre nós o mantra que todos os canoistas têm de ter em mente quando lutam contra a força da água que se desloca com rapidez: "Nunca pare de remar. Você deve apenas remar nas corredeiras. Apenas remar". Custe o que custar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ANDY PARKER É PAI DE ALISON PARKER, MORTA NA SEMANA PASSADA COM O CINEGRAFISTA ADAM WARD ENQUANTO FAZIAM UMA ENTREVISTA PARA A EMISSORA WDBJ

 

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