Minha pergunta para o debate do Partido Republicano

Se eu tivesse de fazer uma pergunta aos aspirantes no debate republicano de ontem, ela seria: "Como parte de uma lei dos transportes de 1982, Ronald Reagan aumentou o imposto de US$ 0,04 por galão de gasolina para US$ 0,09, dizendo: 'Quando construímos nossas rodovias, nós as pagamos com um imposto sobre a gasolina' - e acrescentou que o conceito era justo. Vocês acreditam que Reagan estava certo na época e concordariam em elevar o imposto sobre a gasolina em US$ 0,05 por galão hoje para podermos financiar a lei das rodovias que está emperrada no Congresso por questões de financiamento?"

O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2015 | 02h01

O imposto atual sobre a gasolina é de US$ 0,148 por galão e a última alta que sofreu foi com Bill Clinton em 1993, após uma elevação por George Bush em 1990. Os preços médios da gasolina caíram para aproximadamente US$ 1 por galão no ano passado, de modo que um aumento de US$ 0,05 mal seria notado. O Senado aprovou na semana passada uma lei dos transportes de seis anos, mas com garantia de financiamento de apenas três anos. E como os republicanos do Senado se recusaram a aprovar qualquer imposto sobre a gasolina, eles levantam os recursos, em parte, com a venda da reserva estratégica de petróleo, que é a garantia contra outra crise do produto.

Não estou inventando isso. Os republicanos da Câmara ainda vão analisar. Talvez eles proponham financiar a lei vendendo ouro de Fort Knox ou quadros da National Gallery. Por que essa é uma pergunta crucial? Porque ela chega ao cerne do que hoje corrói o Partido Republicano e, indiretamente, os EUA: não há mais uma centro-direita republicana que não teria problema em elevar o imposto sobre a gasolina para algo tão fundamental como a infraestrutura.

Há, com certeza, candidatos de centro-direita - como Jeb Bush e John Kasich. Mas será que eles poderão concorrer, vencer e governar da centro-direita quando a base de seu partido e tantos de seus doadores bilionários refletem as visões iradas contra ciência, impostos, governo, minorias, direitos de gays e imigração do Tea Party e seu agente na mídia, a Fox News? Os EUA têm mais vantagens naturais para prosperar no século 21 do que qualquer outro país do planeta. Mas isso só pode ocorrer se o partido de centro-direita oferecer soluções criativas, com base

no mercado, para aproveitar essas oportunidades e desafios - pronto para fazer concessões a um partido de centro-esquerda com abordagens mais orientadas para o governo.

O Partido Democrata ainda é dominado por sua centro-esquerda - Barack Obama e Hillary Clinton. No Partido Republicano de hoje, a base de extrema direita está estabelecendo a agenda. O republicano Bruce Bartlett, escrevendo no site Politico na semana passada, sugeriu que se Donald Trump se tornasse o candidato presidencial dos republicanos, surfando na onda do Tea Party, e levasse uma surra muito grande na eleição nacional, o partido teria de retornar à centro-direita. "O fenômeno Trump representa perfeitamente o auge do populismo e anti-intelectualismo que se tornou dominante no Partido Republicano com a ascensão do Tea Party", escreveu Bartlett, que trabalhou no governo Reagan. "Muitos líderes republicamos tiveram profundas desconfianças do Tea Party desde o início, mas os benefícios de curto prazo eram demasiadamente grandes para resistir. Uma derrota de Trump é a melhor chance de republicanos moderados recuperarem o partido."

O que significa ser um republicano de centro-direita? Significa começar cada dia com a pergunta: "Em que mundo vivo e de que modo alinho melhor o país para prosperar nesse mundo?" É estar pronto para fazer concessões a coisas fundamentais como a aprovação da lei dos transportes e fazer distinção entre "gasto" e "investimento". Fazer cortes de alto a baixo é estúpido.

Como são as políticas de centro-direita? Em infraestrutura, um imposto sobre a gasolina. Em imigração, um muro alto para garantir a nossos cidadãos que podemos controlar nossas fronteiras, mas com um portão muito grande para promover a imigração legal dos trabalhadores do conhecimento com QI elevado e trabalhadores menos especializados vigorosos que sempre impulsionaram nossa economia. Em termos de clima, ela se parece com um estudo recente de Jerry Taylor, presidente do Niskanen Center, um think-tank liberal que faz uma defesa conservadora do imposto sobre o carbono. Taylor defende que "os riscos impostos pela mudança climática são reais e uma política que os ignore é inconsistente com as práticas de gestão de risco que os conservadores adotam em contextos não climáticos". A centro-esquerda não concordaria com tudo, mas se essa fosse a posição do Partido Republicano, - a mudança climática é real e essa é nossa solução de mercado - eu garanto que teríamos um sério acordo nacional sobre política climática agora. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

 

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