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'Minha prisão atrapalhou a cobertura na Líbia', diz jornalista do 'Estado'

Em livro a ser lançado em São Paulo, correspondente relata detalhes sobre revolta contra Kadafi e sobre sua detenção

Entrevista com

ROBERTO LAMEIRINHAS, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2012 | 02h06

Texto atualizado em 29/11

 

O correspondente do Estado em Paris, o jornalista Andrei Netto, lança nesta quinta-feira, 29, em São Paulo, o livro O Silêncio Contra Muamar Kadafi, no qual - entre outros relatos da cobertura da guerra civil da Líbia que depôs Muamar Kadafi no ano passado - narra os oito dias que passou numa prisão líbia de Sabratha, em fevereiro de 2011.

Estado: O livro demorou quase dois anos, desde a sua prisão na Líbia até o lançamento. Por que você decidiu escrevê-lo e por que essa relativa demora?

Andrei Netto: Em primeiro lugar, por ética pessoal. Recebi a primeira proposta para escrever esse livro em 17 de março de 2011, quatro dias após minha libertação. Era um convite para publicar um relato sobre meus dias de prisão. É evidente que a detenção e a ameaça permanente de morte tornaram-se um marco da minha vida pessoal e são algo decisivo na minha visão de mundo. Mas não seria honesto enfatizar meus dramas diante de uma revolução que já havia deixado milhares de mortos e mutilados. Eu queria entender as raízes da Primavera Árabe. Isso implicava dois desafios: cobrir toda a revolução, dos primeiros levantes no interior do país à morte violenta do ditador, e reconstituir a história de vida e o destino de alguns personagens, como Siraj, um dos jovens que capturou Kadafi. Essa segunda etapa foi muito difícil e longa. Costumo dizer que a prisão estragou a minha cobertura; não foi seu grande momento, como alguns poderiam pensar.

 

Assista à entrevista feita pela TV Estadão (o texto continua após o vídeo):

 

Estado: Como foi voltar ao local onde você ficou detido após a queda de Kadafi?

Andrei Netto: Esse é um ponto intrigante no aspecto psicológico da prisão. Eu tinha certeza de que seria interessante do ponto de vista jornalístico, mas na verdade eu tinha razões pessoais para retornar a esse local. É algo que eu ainda tento entender, quando penso a respeito.

Estado: Durante o período de revolução na Líbia você conseguiu ter alguma percepção de divisão entre os grupos que combatiam o regime? E entre os kadafistas?

Andrei Netto: Sim, era possível identificar algumas fissuras entre os rebeldes. Desde o princípio era claro que havia tensões entre líderes revolucionários com perfis religiosos diferentes. Os liberais e moderados enfatizavam o discurso democrático, de respeito aos direitos humanos. Em geral, eles sonhavam com a Líbia como um país laico, à imagem do Ocidente, embora de cultura muçulmana. Já os conservadores e radicais pareciam usar o discurso democrático para legitimar a causa revolucionária, mas não necessariamente tinham apego real aos princípios de um país livre, como a liberdade religiosa, de expressão ou de igualdade dos sexos. A revolução uniu os líbios de diferentes matizes. Mas não apagou as diferenças, nem eliminou os vícios autoritários e beligerantes dos islamistas radicais, um segmento minoritário.

Estado: Como você vê a Líbia hoje? Há uma diferença entre os islamistas da Líbia e dos demais países da Primavera Árabe?

Andrei Netto: A Líbia vive hoje um período pós-revolucionário, em que o fator de coesão - a luta contra Muamar Kadafi - acabou. Isso ressalta diferenças que se tornam perigosas, porque se trata de uma população armada até os dentes. A Líbia está sujeita a movimentos contrarrevolucionários, não só de fiéis kadafistas, mas em especial de islamistas radicais que participaram da revolução por oportunismo e hoje tentam impor seus valores ultraconservadores à sociedade. Eles são um risco, porque contam com brigadas armadas, em especial no leste do país, na região de Benghazi - por ironia, berço da revolução.

Estado: Como você vê a atuação da comunidade internacional nos diversos capítulos da Primavera Árabe?

Andrei Netto: Há diferenças fundamentais. Egito e Tunísia realizaram revoluções sem o choque do conflito armado, embora passem por um momento extremamente delicado. Em termos de estrutura do conflito e de conquistas territoriais, a revolução vista na Líbia se parece em alguma medida com o que ocorre hoje na Síria. Mas a guerra contra Assad é marcada por sectarismos religiosos e culturais graves que não existiam na Líbia. Além disso, havia a intervenção da comunidade internacional e da Otan, que evitou um massacre kadafista. A revolução na Líbia não teria chegado ao mesmo fim sem a intervenção externa.

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