David Mercado/ Reuters
David Mercado/ Reuters

MP da Bolívia ordena prisão da ex-presidente e general acusado de 'golpe' em Evo

Jeanine Añez está sendo acusada pelo Ministério Público do país ao lado de ministros e do ex-comandante das Forças Armadas

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2021 | 16h59
Atualizado 12 de março de 2021 | 22h34

LA PAZ - O Ministério Público da Bolívia ordenou nesta sexta-feira, 12, a prisão da ex-presidente interina Jeanine Áñez pelos delitos de “sedição e terrorismo”, relacionados com a crise política de outubro e novembro de 2019, que levou à renúncia de Evo Morales à presidência. O MP também pediu a detenção – a instituição conta com essa prerrogativa no país andino – do ex-comandante das Forças Armadas general William Kaliman e do ex-chefe da polícia Yuri Calderón por terem pedido então a renúncia de Evo. 

A ordem de prisão foi dada no momento em que o partido governista, o Movimento ao Socialismo (MAS), exige um julgamento por golpe de Estado contra vários opositores e ex-líderes militares.

O general Kaliman e Calderón pediram publicamente a renúncia de Evo em novembro de 2019, quando o país enfrentava protestos que deixaram 36 mortos após denúncias de fraude nas eleições. A crise precipitou a renúncia de Evo, que tinha sido reeleito para um quarto mandato até 2025. 

Até o início da noite desta sexta-feira, Kaliman ainda não tinha sido preso e Calderón não foi encontrado em sua casa para assumir sua defesa no julgamento por sedição e conspiração em que Jeanine também está sendo investigada.

Perseguição

Agentes da polícia e da promotoria permaneciam hoje diante da residência de Jeanine na cidade de Trinidad, no Departamento amazônico de Beni, para cumprir a ordem de prisão. A própria Jeanine divulgou nas redes sociais a ordem de detenção contra ela. 

“A perseguição política começou”, denunciou Jeanine, que postou a imagem da ordem de prisão. Segundo o documento, o pedido tem como base uma investigação aberta pelo Ministério Público após a denúncia apresentada pela ex-deputada do MAS Lidia Patty.

Também foi ordenada a prisão de Álvaro Rodrigo Guzmán Collao, ex-ministro interino de Energia, e Álvaro Eduardo Coímbra Cornejo, ex-ministro interino de Justiça. Os dois já foram presos na cidade de Trinidad e seriam transferidos para La Paz.

Outro investigado é Luis Fernando Camacho, líder dos protestos da oposição e virtual governador eleito de Santa Cruz nas eleições regionais de domingo, cuja contagem oficial ainda não foi concluída. Camacho não tem mandado de prisão e deveria ter testemunhado na quinta-feira, mas a audiência foi suspensa em razão da presença em massa de seus seguidores nas portas do tribunal.

Pressão

No auge da crise, depois de quase três semanas de protestos, Evo havia anunciado novas eleições, embora sem uma data definida, após um relatório preliminar da Organização dos Estados Americanos (OEA) apontar várias “irregularidades”. No entanto, a medida não acalmou as Forças Armadas. O general Kaliman divulgou um comunicado no qual disse que a saída de Evo seria “importante” para resolver o impasse político em que se encontrava o país desde as eleições presidenciais. 

Após a renúncia de Evo, o vice-presidente Álvaro García Linera disse que também estava deixando o seu cargo, denunciando a consumação de um golpe. A terceira na ordem de sucessão era a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, que também anunciou sua renúncia. O quarto, Victor Borda, presidente da Câmara dos Deputados, também deixou o cargo.

Com isso, Jeanine, então segunda vice-presidente do Senado, se proclamou presidente interina da Bolívia, cargo que ocupou até outubro de 2020, com o apoio das Forças Armadas e da polícia. Aliados do ex-presidente Evo até hoje tratam o episódio como um golpe. 

Em outubro de 2020, novas eleições foram realizadas com a vitória de um aliado de Evo – Luis Arce, ex-ministro da Economia e também integrante do partido Movimento ao Socialismo (MAS). Jeanine tentou durante meses viabilizar sua candidatura, mas, diante do fraco desempenho nas pesquisas, abandonou a ideia. / AFP e EFE

 

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