Ministro argentino pede renúncia de juíz que ofendeu Kirchner

O ministro do Interior argentino, Aníbal Fernández, pediu nesta segunda-feira, 26, a renúncia de Alfredo Bisordi, presidente da Câmara Nacional de Cassação Penal.O pedido veio após o juiz ter afirmado que o presidente do país, Nestor Kirchner, se intromete na justiça, como não ocorreu em 40 anos nem com os governo ditatoriais.Kirchner voltou a criticar no sábado a Câmara de Cassação Penal por atrasar os processos contra os ex-repressores da ditadura (1976-1983), acusados de cometerem "crimes contra a humanidade".O presidente fez suas críticas no ato realizado em torno do 31º aniversário do golpe militar, do dia 24 de março de 1976, na cidade de Córdoba, centro do país."O que acontece na Câmara de Cassação, onde processos que deveriam estar em andamento estão parados?", perguntou Kirchner publicamente durante o ato do sábado, em Córdoba.Nessa instância judicial existem 193 recursos de apelação apresentados por repressores, alguns dos quais são de 2003 e ainda não foram resolvidos pelo tribunal, atrasando o início dos processos por violação aos direitos humanos.O ministro Aníbal Fernández, em declarações à imprensa, pediu que Bisordi "renuncie", pois assim "fará um bem à pátria".Bisordi alegou que "a Câmara de Cassação está transbordando" e como exemplo recordou que "em 2006 entraram mais cinco mil causas".Declarações de Bisordi"Por esse caminho, vamos ao âmago do poder público", respondeu Bisordi, e afirmou indiretamente que o presidente Kirchner se intromete na justiça mais que alguns ex-ditadores argentinos, como Juan Carlos Onganía (1966-1970) e Jorge Rafael Videla (1976-1981)."Eu tenho uma experiência de 40 anos de serviço. Durante todo esse período, no qual tivemos governos autoritários e constitucionais, jamais vi uma intromissão no trabalho dos tribunais como a de agora do presidente da República", defendeu o titular do principal tribunal do país.Organismos de direitos humanos e familiares das vítimas da ditadura pediram na semana passada no Conselho da Magistratura a remoção de Bisordi e outros três membros da Câmara de Cassação, por "atrasarem os processos" contra os ex-repressores."Não tenho a menor dúvida de que essa denúncia foi redigida pelo governo nacional", respondeu o juiz.Rodolfo Yansón, advogado de vários ex-presos políticos, sobreviventes dos centros clandestinos de detenção, qualificou como um "absurdo" as declarações de Bisordi."O que Bisordi disse sobre riscos de totalitarismo é um absurdo e deixa claro que apenas consegue enxergar uma suposta pressão do governo, mas jamais nota os pedidos de justiça da sociedade", declarou o advogado.

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