JAMIL CHADE/ESTADAO
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Ministro da Hungria renuncia em meio à crise de refugiados

Hende Csaba é acusado pelo governo de perder o controle da situação; imigrantes fogem de campo de refugiados e tentam ir para Budapeste

JAMIL CHADE - ENVIADO ESPECIAL A ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2015 | 19h40

A crise na fronteira entre a Hungria e a Sérvia se aprofundou nesta segunda-feira, quando centenas de imigrantes romperam os cordões policiais em volta de um campo de refugiados na fronteira e tomaram as estradas rumo a Budapeste. Em meio ao caos provocado pela crise de refugiados, o ministro da Defesa da Hungria, Hende Csaba, acusado pelo governo de perder o controle da situação, renunciou.

O partido de oposição LMP afirmou que o ministro, na verdade, teria renunciado por se recusar a conduzir uma suposta operação militar contra os imigrantes na fronteira.

O Estado foi até a Sérvia e acompanhou a chegada na Hungria de 3 mil pessoas que, em menos de 12 horas, cruzaram a fronteira. O cenário era de descontrole por parte das autoridades, que admitiam que não sabiam mais onde colocar as pessoas.

Um grupo de 300 refugiados rejeitou ser levado para centros de detenção criados pelos húngaro e, desafiando até gás de pimenta, tomaram a estrada que liga o sul do país a Budapeste. O movimento levou quatro horas para ser controlado pelas autoridades. À força, muitos foram reconduzidos de volta aos centros de refugiados, enquanto apenas algumas dezenas dormiram de baixo de pontilhões. O Estado presenciou pelo menos três grupos de cerca de cinco pessoas cada tentando cruzar uma das estradas mais movimentadas do país, a E75, que liga Belgrado a Budapeste.

Temendo serem detidas, ao menos 2 mil pessoas se recusavam a descer dos trens que vinham de Belgrado e pararam na fronteira com a Hungria. O fluxo, segundo funcionários da ONU no local, revela que a crise não acabou e o movimento de refugiados em direção à Europa será uma nova realidade com a qual o continente terá de se adaptar.

Na Hungria, o governo admitiu que o sistema de registro de refugiados entrou em pane. Praticamente ninguém mais está sendo registrado e os refugiados são apenas cercados pelas forças de segurança.

Num primeiro momento, aqueles detectados nas fronteiras são levados a um “acampamento” do lado húngaro da fronteira. Mas o local é apenas um campo de milho abandonado que se transformou nos últimos dias em uma prisão. Cercados por agentes da polícia, os refugiados são obrigados a esperar e dormir sem qualquer proteção nem abrigo. “Estamos aqui há quatro dias e ninguém nos diz o que vai ocorrer”, declarou o sírio Ahmed, em um inglês perfeito.

Mais da metade dos refugiados não contava com barracas para dormir e, entre sábado e hoje, dezenas de crianças adoeceram por passar a noite ao relento sob uma temperatura de 8 graus C. “Estamos todos doentes. Por que é que vocês nos mantêm aqui?”, questionava uma senhora a um policial, mostrando sua filha com febre alta. O agente de segurança apenas olhava em silêncio, usando uma máscara sanitária e luvas.

Enquanto ela falava, outro grupo iniciava um protesto. “Queremos ir, queremos ir”, gritavam. Em pelo menos dois momentos, a ira dos refugiados se transformou em confronto com a polícia. Alguns deles tentaram escapar e saíram correndo por um milharal. A fuga provocou uma ampla mobilização da polícia que, instantes depois, retornaria com cinco afegãos detidos.

Nas fronteira, o clima era de tensão. “Vocês terão de esperar. Estamos com muita gente para processar e isso vai levar tempo”, explicou um policial. Mohamed Al Baba, da Síria, respondeu imediatamente: “Se vocês têm muita gente, então nos deixem ir. Ninguém aqui quer ficar na Hungria”, disse.

Al Baba contou ao Estado que não entendia como, depois de mais de um mês de viagem entre a Turquia e aquela fronteira, estava impedido de prosseguir com suas duas filhas, mulher e um amigo. “Só estamos aqui por que fugimos do Estado Islâmico e de Bashar (Assad). Todos eles cortam os nossos dedos. São criminosos e nós estamos no meio disso. Só queremos paz”, insistiu. Mas, empurrando um carrinho de bebê que encontrou abandonado na Grécia, ele não escondia sua frustração. “Isso aqui é que é a Europa?”, criticou.

O novo fluxo de refugiados na Hungria ocorre em meio a um endurecimento das leis contra estrangeiros e até contra quem os ajude. A entrada de mais de 100 mil pessoas pelo território este ano provocou uma profunda crise que levou à renúncia do ministro da Defesa. Hende Csaba foi acusado de demorar a completar a construir o muro que separa a Hungria da Sérvia e de deixar a situação sair de controle.

Ele renunciou após uma reunião do conselho nacional de segurança para discutir o enorme fluxo de refugiados que chegam ao país. O primeiro-ministro Viktor Orbán, um direitista que tem pressionado por uma linha dura em relação à crise de imigração na Europa, aceitou a renúncia e ofereceu o cargo a Istvan Simicsko, também membro do seu partido Fidesz.

Ainda nesta segunda, Orbán voltou a adotar uma dura posição contra os refugiados. Segundo ele, a Europa precisa “proteger suas fronteiras cristãs”. Para Orbán, que reiterou sua rejeição ao sistema de cotas para a distribuição dos refugiados, “essas pessoas não querem segurança, apenas a vida alemã”.

Ao Estado, membros das forças de ordem na fronteira alegaram que a preocupação é a de que o fluxo de pessoas também esteja sendo usado pelo Estado Islâmico para “infiltrar pessoas” na Europa. Mas tanto a ONU quanto as ONGs alertam que não se pode usar o argumento de combate ao terrorismo para justificar o sofrimento de centenas de pessoas.

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