Ministro de Israel é contra testemunho de soldados

O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, manifestou hoje sua oposição a que soldados testemunhem em investigações civis, levantando novas dúvidas sobre a participação de Israel numa investigação da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o mortífero ataque israelense à flotilha de ajuda humanitária à Faixa de Gaza.

AE-AP, Agência Estado

10 de agosto de 2010 | 12h49

O ataque aconteceu em 31 de maio e deixou nove ativistas turcos mortos no navio Mavi Mármara. Barak afirmou que levar soldados aos tribunais é algo que poderá prejudicar a habilidade dos militares agirem. Comparando os soldados a cirurgiões, ele disse que os militares atuam melhor quando não são consumidos por temores de uma potencial investigação.

"Eu não quero um soldado tomando uma decisão conflituosa para ter que pensar sobre um advogado", disse Barak à comissão israelense que investiga o ataque de 31 de maio. "Boas unidades militares se levantarão e cairão por causa disso". Barak falou logo antes que um painel da ONU que investigará os acontecimentos começasse sua reunião, em Nova York.

Ontem, Israel ameaçou deixar a investigação internacional após o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, ter dito que não existia nenhum acordo que impedisse a convocação de soldados israelenses para prestar testemunho. Israel afirma ter concordado em participar da investigação do órgão apenas após ter recebido garantias de que o painel irá se basear em relatórios da própria investigação militar israelense, não em testemunhos de soldados.

Mudança

A aceitação de Israel em colaborar com a investigação da ONU representou uma mudança na postura do governo israelense, que normalmente desconfia da ONU, a qual considera parcial. Israel indicou um diplomata experiente para se juntar ao painel, mas os comentários de Ban colocaram a sua participação em dúvida.

Barak afirma que a investigação militar de Israel tem os meios mais adequados para punir os soldados que forem considerados culpados. "O julgamento do procurador-chefe militar não é subordinado a nenhum comandante, nem mesmo ao chefe do Estado Maior, apenas à sua consciência profissional", afirmou o ministro.

Histórico

A frota de ajuda humanitária de seis navios estava tentando chegar à Faixa de Gaza, quando foi abordada por comandos navais israelenses em águas internacionais. A morte dos ativistas gerou uma onda de protestos internacionais e forçou Israel a afrouxar seu bloqueio à Faixa de Gaza, território palestino controlado pelo Hamas.

Israel e o Egito impuseram o cerco ao território palestino em junho de 2007, após militantes do Hamas tomarem o controle da Faixa de Gaza. Em seu depoimento de três horas à investigação israelense, Barak chamou a flotilha de ajuda humanitária de uma "provocação planejada" e defendeu a decisão do governo de enviar tropas para evitar que os navios chegassem ao litoral da Faixa de Gaza.

Ele também afirmou que o governo de Israel considerou todas as opções antes do ataque, inclusive a possibilidade de que a operação tivesse um desfecho violento, mas não esperava que a violência fosse letal. "Os militares disseram várias vezes que não seria algo simples, mas que poderíamos fazer isso", disse.

A comissão de Israel é chefiada pelo juiz aposentando Jacob Turkel, da Suprema Corte de Israel. Ela conta com dois observadores internacionais: David Trimble, prêmio Nobel da Paz da Irlanda do Norte, e o brigadeiro general Ken Watkin, ex-procurador militar do Canadá.

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