Ministro diz que redução vacinal traz risco de novos surtos

Estudo que mostra queda na cobertura na classe mais rica fará governo repensar comunicação das campanhas

Fabiana Cimieri, de O Estado de S. Paulo,

03 de outubro de 2008 | 18h05

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, alertou que a baixa cobertura vacinal na classe mais rica e escolarizada da população aumenta o risco de novos surtos de doenças já erradicadas no País, como a poliomielite. Ele demonstrou preocupação ao comentar o estudo da Santa Casa de São Paulo, divulgado em primeira mão pelo Estado.    Enquete: você acha importante vacinar as crianças? "Temos que ver o que é que há com essa faixa de renda, talvez uma sensação de que a doença estaria erradicada e que não seria importante manter o calendário de vacinação completo, mas exatamente o que garante a erradicação de muitas doenças no Brasil é uma cobertura vacinal alta", disse o ministro, depois de participar da cerimônia de assinatura de um novo modelo de gestão no Instituto Nacional do Câncer (Inca).  "Quando se tem uma cobertura vacinal baixa, aumenta muito o risco dessas bactérias continuarem circulando e surgirem surtos da doença". alertou Temporão.  Para o ministro, os pais têm uma grande responsabilidade para manter a caderneta de vacinação de seus filhos atualizada. Ele acrescentou que o estudo, que foi financiado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Pan-Americana de Saúde, é importante "porque vai nos levar a repensar estratégias de comunicação, focadas para que todas as classes sociais e de renda entendam que é importante cumprir todo o calendário das crianças".   De acordo com o estudo, que analisou 17.749 cadernetas, o porcentual de cobertura vacinal na Classe A e na Região Sudeste é de 68,9%. A média brasileira é de 81%, também bem abaixo do que é preconizado pela Organização Mundial de Saúde, que é de 95%.   Fundações No Inca, o ministro elogiou o modelo de gestão da instituição, que conta com o apoio da Fundação Ary Frauzino. Ela foi criada, há 16 anos, para arrecadar fundos públicos e privados de apoio à pesquisa e contratar funcionários pelo regime da CLT.  O projeto do governo, que institui as fundações estatais de direito privado, teria esse mesmo propósito de agilizar a contratação de pessoal e fazer licitações menos burocráticas.  "Não me parece razoável que um médico possa se sentir confortável tendo cinco ou seis empregos. O que não está sendo dito, mas eu digo aqui, é que acabaria a estabilidade, e eu defendo o fim da estabilidade dos funcionários públicos", afirmou Temporão.  O projeto de lei está tramitando na Comissão de Constituição de Justiça do Senado e, se aprovado, irá a plenário no Congresso.   Ele disse que as críticas ao projeto, feitas por sindicatos e conselhos de medicina, estão baseadas em "mentiras", porque o governo não quer privatizar e nem terceirizar a saúde. "O que temos de pensar é saímos de uma situação de confronto, onde nem o governo e nem os profissionais estão satisfeitos, para uma situação que atenda às demandas da sociedade e permita aos profissionais de saúde perceberem que estão sendo melhor remunerados, que as condições de trabalho estão mais adequadas."   Temporão também voltou a defender como única forma de acabar com o subfinanciamento crônico da saúde a regulamentação da emenda 29, que estabeleceu os gastos mínimos em saúde dos governos federal (corrigidos pela variação nominal do PIB), estadual (12% de suas receitas) e municipal (15% da receita).  A regulamentação, que tramita há oito anos no Congresso, irá determinar quais são os gastos da área de saúde e quais não são.  Ele citou a pesquisa Economia da Saúde, do IBGE, que calculou que o gasto público é apenas 40% do gasto total em saúde, como um novo elemento para reavivar a discussão. Dos R$ 160 bilhões de despesas em saúde no ano de 2005, o governo pagou R$ 60 bilhões e as famílias, R$ 100 bilhões.  "Os obstáculos são políticos, a sociedade brasileira, representada pelos deputados e senadores, tem que tomar uma decisão: se vamos continuar a construção do sistema universal de qualidade a todos brasileiros, temos que gastar mais recursos".

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