Após golpe frustrado, Erdogan prende 6 mil pessoas e abre tensão com EUA

Presidente Erdogan acusa clérigo radicado nos EUA de conspiração e pede extradição

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2016 | 10h03

Genebra - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ampliou ontem a repressão contra grupos suspeitos de envolvimento no fracassado golpe de estado na Turquia. Autoridades anunciaram mais de 6 mil prisões e indicaram que a onda de detenções continuará. Membros do governo já falam em restaurar a pena de morte no país. Dois dias após tentativa de golpe, a crise voltou a testar as relações entre Ancara e Washington. 

 Ontem, por várias cidades da Turquia, funerais foram realizados para alguns dos quase 300 mortos durante os confrontos. Mostrando-se emocionado no enterro de um de seus aliados, o presidente prometeu que “limparia o país do vírus” que existe na máquina do Estado. O recado era direcionado a seu principal opositor, Fethullah Gülen, exilado nos EUA desde 1999. 

Erdogan deu início no fim de semana a uma caçada a qualquer pessoa envolvida no movimento criado por Gülen, independentemente de ter ou não um papel no golpe, com as prisões de 29 generais, mais de 3 mil soldados e outros 2,8 mil juízes e magistrados, entre eles um dos nomes mais importantes do Judiciário, Alparsian Altan. 

Um dos assessores militares de Erdogan, o general Ali Yazici, também foi preso. Outro três generais da cúpula das Forças Armadas foram detidos, acusados de terem comandado o golpe. O comandante da base turca usada pelos EUA para atacar o Estado Islâmico também foi preso.

“Continuaremos a limpar o vírus de todas as instituições do Estado”, disse Erdogan. Segundo ele, o governo e membros da oposição se reuniriam para começar a avaliar uma nova lei no Parlamento para reintroduzir a pena de morte. Em 2004, a pena capital havia sido abolida, numa tentativa de acelerar a adesão de Ancara à UE. 

Analistas apontaram que o golpe deve dar o espaço para que Erdogan aumente seu poder. No entanto, o chanceler da França, Jean Marc Ayrault, indicou que o líder turco não poderia usar o golpe como um “cheque em branco” para silenciar opositores. 

Dentro da Turquia, muitos dizem que o golpe pode ter sido uma tentativa desesperada de parte dos militares diante da concentração cada vez maior de poder nas mãos do presidente, que planejava uma remoção de generais em setembro. 

“Nada justifica o que ocorreu na Turquia, mas temos um golpe de Estado em câmara lenta promovido pelo governo”, afirmou um professor de ciências políticas de Istambul ao Estado. Temendo represália, ele pediu para ter sua identidade preservada. O analista Dogu Ergil, da Universidade de Ancara, acredita que dificilmente Gülen esteja envolvido e o amadorismo da iniciativa não condiz com a organização das redes do opositor. “Isso significa, portanto, que pode haver outro grupo de oposição no país”, disse. 

Tensão. O golpe voltou a criar tensão entre Washington e Ancara. O presidente Barack Obama afirmou que não reconheceria o governo golpista. Ainda assim, Suleyman Soylu, ministro do Trabalho de Erdogan, sugeriu que a ofensiva foi patrocinada pela Casa Branca. “Os EUA estão por trás do golpe”, disse.

Horas depois, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry disse que a acusação era “irresponsável” e não aceitaria o tom. Ele pediu que a Turquia “respeite as regras” e use procedimentos legais” para julgar os golpistas. Em nota, o Departamento de Estado alertou que tais acusações “afetariam a relação bilateral”. 

Outro ponto de fricção é o fato de Gülen viver nos EUA desde 1999. O Ministério da Justiça da Turquia indicou que pedirá sua extradição e fez um alerta para que os EUA não protejam o suposto autor do golpe. Kerry respondeu de forma dura. “Então, que se apresentem evidências legítimas contra ele.” 

Ao New York Times, Gülen negou envolvimento com o golpe, mas não descartou que seus seguidores pudessem estar entre os organizadores. Ele comparou Erdogan ao nazismo. “Eles confiscaram propriedades, imprensa, quebraram portas e assediaram pessoas da mesma maneira que a SS de Hitler”, disse. 

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