Ministros deixam cargos e reforçam campanha chavista

Figuras mais populares do gabinete de Chávez são enviados a seus Estados para integrar listas eleitorais e 'puxar' votos do PSUV

, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

CARACAS

A reforma ministerial promovida na quarta-feira à noite pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem como objetivo reforçar a campanha governista para as eleições legislativas de setembro. Embora a troca de ministros tenha sido apresentada como uma medida para "melhorar a administração pública", a oposição viu nela uma estratégia eleitoral.

Os nomes que estão de saída do governo estão entre os mais populares do gabinete e devem liderar as listas de candidatos em seus Estados, atraindo votos para o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O caso mais marcante é o de Diosdado Cabello, que até então ocupava o cargo de ministro de Obras Públicas e Moradia. Ele é um grande aliado de Chávez e encabeça a lista governista do Estado de Monaguas.

Além de Cabello, o PSUV lançará outros 110 candidatos que já ocuparam cargos no governo ou no Legislativo. Além de Cabello, deixaram o gabinete Héctor Navarro, Victoria Mata, María León, Erika Faría e Tania Díaz. Ao todo, o partido governista terá uma lista de 165 nomes.

Para o analista Manuel Sierra, as mudanças respondem a uma necessidade de Chávez de contar com seus aliados "mais leais" para a disputa eleitoral. "O presidente repete as mesmas caras, faz trocas no gabinete e propõe velhos nomes para a Assembleia Nacional porque são sua equipe de confiança."

Depois de ter atingido o nível mais baixo de popularidade dos últimos seis anos, Chávez conseguiu frear a queda nos últimos meses, segundo o instituto de pesquisa Hinterlaces. Apesar da crise econômica, da inflação de cerca de 30% ao mês, da desvalorização do bolívar forte e dos recentes escândalos envolvendo empresas estatais, o nível de aprovação do presidente subiu de 40%, em fevereiro, para quase 50%, em junho. De acordo com especialistas, o crescimento deve-se à estratégia de Chávez de culpar a elite venezuelana e o capitalismo pela crise econômica do país. O presidente ampliou sua presença na mídia, recorrendo com mais frequência neste anos à lei que obriga todas as emissoras de rádio e TV nacionais a transmitir discursos e atos públicos do presidente da república.

Ataques à oposição. "É um discurso cansativo, mas efetivo", afirmou Oscar Schemel, diretor do Hinterlaces. Segundo ele, outras políticas eleitorais são o fim do racionamento de energia, decretado em no início do mês, e o fechamento do cerco aos oposicionistas.

Entre os ataques à oposição está o pedido de prisão de Guillermo Zuloaga, presidente da rede de TV opositora Globovisión, a intervenção no Banco Federal, que pertence a outro sócio do canal, Nelson Mezerhane.

Além das medidas contra seus rivais, Chávez tem sido favorecido por outros três fatores, segundo analistas: a falta de organização da oposição, as novas regras eleitorais confusas impostas pelo governo e os indecisos, que não são chavistas nem antichavistas, grupo apelidado na Venezuela de "ni-ni".

Além disso, a reforma aprovada em agosto pela Assembleia Nacional alterou a composição dos distritos e o cálculo de coeficiente eleitoral de tal forma que é possível que o PSUV tenha, por exemplo, 51% dos votos e faça até 85% dos deputados.

PARA ENTENDER

Chávez terá eleição crucial

Por causa do boicote da oposição às eleições legislativas, em 2005, Hugo Chávez obteve quase a unanimidade na Assembleia Nacional. Sem rivais no Parlamento, ele teve liberdade para legislar e fez o que quis. A votação de 26 de setembro, portanto, é fundamental para que o presidente mantenha a capacidade de aprovar leis que consolidem o que ele chama de "socialismo do século 21".

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