Ministros deixam governo interino na Tunísia

Para analistas, renúncias podem enfraquecer e até derrubar coalizão de unidade um dia após criação

BBC

18 de janeiro de 2011 | 11h06

TÚNIS - Pelo menos três ministros do novo governo interino de coalizão na Tunísia anunciaram sua renúncia nesta terça-feira, 18, de acordo com relatos da mídia árabe.

 

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Os políticos seriam do partido União Geral de Trabalhadores Tunisianos, que teve um papel central nos protestos que tiraram o ex-presidente Zine al-Abidine Ben Ali do poder na última sexta-feira. Segundo analistas, a notícia das renúncias pode representar o colapso do governo de unidade nacional.

Mais cedo, manifestantes entraram em confronto com a polícia na capital, Túnis. Muitos protestavam contra a permanência de membros do governo de Ben Ali no gabinete ministerial interino. O governo interino é liderado pelo primeiro-ministro do governo anterior, Mohammed Ghannouchi.

Ao anunciar o seu gabinete na segunda-feira, Ghannouchi afirmou que seis ministros do governo de Ben Ali, entre eles o do Interior e da Defesa, continuariam nos cargos, enquanto a oposição ficaria com os Ministérios de Educação Superior, Desenvolvimento Regional e Saúde.

Em entrevistas a rádios europeias nesta terça-feira, Ghannouchi defendeu a inclusão de membros do antigo governo no governo interino. Ele disse à rádio francesa Europe 1 que os ministros têm "mãos limpas" e sempre trabalharam para "preservar os interesses nacionais".

De acordo com o correspondente da BBC na Tunísia, Wyre Davies, a decisão de manter vários nomes do antigo governo neste governo interino deixou vários tunisianos insatisfeitos. Davies relata que tropas de choque do Exército continuam nas ruas da capital, Túnis.

No entanto, segundo o correspondente, o anúncio de que as restrições à liberdade de imprensa foram relaxadas e da libertação de prisioneiros políticos pode ter convencido boa parte do país a apoiar o governo interino, enquanto a Tunísia se prepara para novas eleições.

Davies afirma que governos ocidentais deram a entender que ainda esperam mais reformas e mais liberdade política. Governos de países vizinhos no norte da África, muitos deles comandados por regimes autoritários, ainda não se manifestaram sobre o novo governo tunisiano.

Reformas e economia

Ben Ali, presidente que renunciou, chegou ao poder em 1987 com um golpe de Estado que derrubou o primeiro presidente da Tunísia após a declaração de independência, Habib Bourguiba.

Ben Ali prometeu promover uma transição gradual para a democracia no país, mas acabou se fixando no poder com sucessivas mudanças na Constituição e eleições em que era o candidato único.

Uma das primeiras tarefas do governo interino será avançar com as reformas constitucionais e preparar a Tunísia para eleições livres.

Outra tarefa urgente, de acordo com Wyre Davies, é estabilizar a economia do país. A estimativa é de que a crise das últimas semanas tenha custado ao país cerca de US$ 2 bilhões.

Crise

Segundo a atual Constituição tunisiana, a nova eleição presidencial deve acontecer dentro de 60 dias.

Os protestos começaram no último mês motivados pela insatisfação com o alto desemprego, o aumento no preço dos alimentos e a corrupção. Segundo o governo, 78 pessoas morreram em choques entre manifestantes e a polícia.

Ben Ali, que foi presidente da Tunísia por 23 anos, viajou na sexta-feira para a Arábia Saudita, depois de renunciar ao cargo.

 

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