Minoria democrata critica o fracasso diplomático de Bush

Cinco meses atrás, quando era líder da maioria democrata no Senado americano, Thomas Daschle apoiou uma resolução que deu carta branca ao presidente George W. Bush parausar a força contra o Iraque.Na última quarta-feira, no entanto, o senador de Dakota do Sul antecipou-se ao discurso no qual Bush deu o ultimato a Saddam Hussein para criticar o fracasso do presidente americano em obter apoio internacional para a invasão do Iraque. "Entristece-me que o presidente tenha falhado tãomiseravelmente na diplomacia e que somos, agora, forçados a ir à guerra", disse ele.O fato de Bush ter perdido uma batalha de relações públicas no foro da opinião pública internacional para uma figura repulsiva como o ditador do Iraque é motivo de apreensão no Congresso, mesmo entre os republicanos, sobre as implicações a curto e longo prazos da invasão do Iraque para os EUA. Apesar do apoio de dois terços dos americanos à decisão de Bush, que deve aumentar com o início do conflito, uma estridente minoria de congressistas da oposição já critica abertamente a decisão do presidente de iniciar uma guerra que consideram desnecessária e que poderá aumentar, em lugar de diminuir, a ameaça terrorista contra os EUA."Penso que muitos de nós do Congresso estamos desapontados que os inspetores de armas de destruição em massa não tenham tido o tempo adequado para trabalhar", afirmou o senador Edward Kennedy, de Massachusetts. Kennedy e Robert Byrd, da Virginia Ocidental, são os dois adversários mais vocais da estratégia de Bush entre os democratas. Na semana passada, Byrd questionou a própria legalidade da decisão de Bush.Há dois outros grupos entre os democratas. O senador Joseph Lieberman, de Connecticut, e deputados Richard Gephardt, de Missouri, ambos pretendentes à Casa Branca, estão entre os que apóiam Bush. Mas mesmo Lieberman lamentou que "a diplomacia unilateralista" da administração tenha minado os esforços para mobilizar o apoio internacional para uma ação que considera plenamente justificada. Há ainda os democratas que apoiariam opresidente com maior entusiasmo se os EUA tivessem garantido o apoio internacional para a ação que um ataque contra o Iraque.O ex-conselheiro de segurança nacional da Casa Branca naadministração Clinton, Samuel "Sandy" Berger, hoje presidente da firma de consultoria Stonebridge International, resumiu a preocupação de democratas e de muitos republicanos ao descrever o cenário da guerra e do pós guerra.Segundo ele, a primeira fase, de remoção do regime de Saddam Hussein será bem mais simples do que a Guerra do Golfo, em 1991, que levou algumas semanas de bombardeios aéreos seguidos de 100 horas de operação terrestre. "Os Estados Unidos têm hoje uma força militar muito melhor do que tinha na Guerra do Golfo, farão uma demonstração de força maciça e creio que essa primeira fase levará dias ou poucas semanas", afirmou Berger. "A fase seguinte será mais longa e conterá vários desafios complicados".Estes incluem a garantia da integridade territorial do Iraque,o atendimento de cerca de um milhão de refugiados desalojados de suas cidades e vilas pelo regime de Saddam, o restabelecimento e administração de suprimentos de comida a cerca de 65% dos 23 milhões de iraquianos, que hoje dependem do programa "Comida em troca de Petróleo", administrado pela ONU, a desmobilização ou reestruturação das forças armadas de 150 mil homens do Iraque e a busca das armas de destruição em massa, cuja existência precisa ser comprovada para justificar politicamente a invasão.Para Berger, a operação politicamente mais delicada, no entanto, será a da transformação da força invasora em força de ocupação. Segundo fontes oficiais, esta tarefa envolverá apresença prolongada no Iraque de pelo menos 100 mil soldados americanos. Para assessores democratas, reside aí o maior perigo potencial da intervenção armada para a segurança dos EUA. "A teoria do dominós às avessas que orienta a administração, segundo a qual o Iraque pós-Saddam será o centro irradiador de uma era democrática no Oriente Médio, requer uma ocupação prolongada do país pelos EUA e não contempla um importante detalhe: a Al-Qaeda surgiu em oposição justamente à presença militar americana na Arábia Saudita", lembrou um assessordemocrata.

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