EFE/ Jagadeesh Nv
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Minorias religiosas na Ásia sofrem com popularização de políticos sectários

Ataques com bomba a símbolos cristãos no Sri Lanka exemplificaram como a convivência religiosa pacífica pode estar ameaçada na região mesmo em países tradicionalmente dirigidos por políticos moderados

Hannah Beech, Dharisha Bastians e Kai Schultz / The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 05h00

JACARTA - Os ataques com bomba no Sri Lanka no domingo de Páscoa, que deixaram ao menos 290 mortos, mostraram como a convivência religiosa pode estar ameaçada em uma região onde o secularismo perde espaço para o políticos que usam sua identidade étnica e sectária para atrair eleitores.

Na Índia, o partido hindu direitista que governa o país explora a fé em troca de votos, forçando uma filosofia de "nós contra eles" que deixou muçulmanos com medo de serem linchados se andarem sozinhos.

Em Mianmar, os generais budistas do país organizaram uma campanha de limpeza étnica contra a minoria muçulmana Rohingya. E na Indonésia e em Bangladesh, os políticos muçulmanos tradicionalmente moderados adotaram posições mais duras para atrair eleitores mais conservadores.

O ataque a três igrejas do Sri Lanka no mostrou também a vulnerabilidade de cristãos na Ásia, onde minorias religiosas de muitos credos foram marginalizados pela onda de nacionalismo e política sectária.

Os cristãos representam pouco mais de 7% da população do Sri Lanka, que há menos de uma uma década estava imerso em uma guerra civil entre a maioria budista cingalesa e os tâmeis, a maioria deles, hindu ou cristão.

Em 2018, explosões em igrejas orquestradas por militantes que juraram lealdade ao Estado Islâmico abalaram as Filipinas e a Indonésia.

Na Índia, o partido de direita do primeiro-ministro Narendra Modi adotou medidas contra minorias muçulmanas e cristãs - estes últimos em razão de sua associação simbólica com o colonialismo britânico.

A partido governista em Bangladesh, a Liga Awami, de inclinação secular, fez uma parceria com clérigos muçulmanos conservadores que frequentemente defendem a perseguição de minorias religiosas, incluindo cristãos.

Em Mianmar, as minorias cristãs temem que sejam os próximos alvos do governo dominado pelos budistas. E no Sri Lanka, uma força política nacionalista budista tóxica se organizou contra cristãos e muçulmanos minoritários, qualificando-os como relíquias de uma era colonial britânica quando a maioria budista era reprimida.

"Vemos como esses grupos cristãos radicais do Ocidente vêm para cá e tentam converter budistas", disse Galagoda Aththe Gnanasara Thero, um monge budista linha dura do Sri Lanka, em uma entrevista antes de ser preso por desacato a uma tribunal no ano passado. "Não podemos permitir que isso aconteça mais."

Pouco mais de uma semana atrás, no Domingo de Ramos - o início da Semana Santa Cristã que culmina na Páscoa - uma multidão da maioria budista cingalesa do Sri Lanka se reuniu em um prédio Metodista na cidade de Anuradhapura, atacando o prédio com pedras e fogos de artifício e prendendo adoradores do lado de dentro.

No ano passado, multidões cingalesas, estimuladas pela retórica incendiária de monges budistas extremistas, cometeram ataques contra muçulmanos perto da cidade de Kandy, na mais recente de uma série de tumultos antimuçulmanos no país.

"Muçulmanos e cristãos, especialmente cristãos evangélicos, têm enfrentado perseguição há muitos anos no Sri Lanka, mas a escala e a natureza dos ataques de hoje não são comparáveis (com os de antigamente)", disse Ruki Fernando, ativista dos direitos humanos católicos em Colombo, capital do país.

Na Índia, os cristãos constituem pouco mais de 2% da população. Mas desde que o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata, de Modi, chegou ao poder em 2014, o espaço para os cerca de 30 milhões de cristãos no país diminuiu.

Como parte de uma repressão mais ampla contra milhares de organizações estrangeiras, uma grande instituição de caridade cristã, a Compassion International, foi fechada em 2017 em meio a acusações de que estava planejando conversões religiosas.

Ainda naquele ano, cantores de Natal ligados à Igreja Católica Romana foram agredidos por hindus no Estado de Madhya Pradesh. Oito padres que foram à delegacia de polícia para ajudar foram detidos pelas autoridades. Do lado de fora do prédio, o carro deles foi incendiado.

Em uma cidade do norte da Índia, um grupo hindu de extrema direita enviou cartas a escolas alertando os administradores sobre as repercussões se exibissem símbolos do Natal nas salas de aula.

O cristianismo evangélico encontrou um solo fértil em toda a Ásia, onde a taxa rápida de conversões criou tensões da Índia até a Indonésia.

Milhares de paquistaneses convertidos fugiram para a Tailândia, onde temem que possam ser deportados a qualquer momento. Há três anos, na Páscoa, um homem-bomba atacou fiéis cristãos em um parque em Lahore, no Paquistão, matando mais de 70 pessoas.

Na Malásia, onde os membros da maioria muçulmana do país são governados pela Sharia - a lei islâmica - em certos assuntos legais, os muçulmanos raramente são autorizados a renunciar à sua fé.

Mesmo na Indonésia, país de maioria muçulmana, que realizou eleições pacíficas neste mês, a política com base na fé tem alterado o cenário político à medida que a perseguição às minorias religiosas cresce com pouca reação dos políticos moderados.


Centenas de igrejas foram forçadas a fechar neste país, onde cerca de 10% da população é cristã. A conversão religiosa é proibida no país, embora a liberdade de credo esteja protegida pela Constituição.

O ex-governador cristão de Jacarta, a capital indonésia, foi libertado este ano depois de cumprir uma sentença de 20 meses por blasfêmia, uma condenação que grupos de direitos humanos viram como evidência da ascensão da política islâmica de linha dura em um país que há muito valoriza sua herança religiosa multifacetada.

O presidente Joko Widodo, um muçulmano moderado, não conseguiu defender o ex-governador de Jacarta, Basuki Tjahaja Purnama, que foi seu protegido. Sobrevivendo a uma campanha de difamação política que o acusava de ser muçulmano de pouca fé, Joko era favorito nas eleições gerais realizadas neste mês - cujo resultado ainda não foi divulgado. / NYT

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