Miscigenação e a política americana

EUA se orgulham de que a cor de um candidato já não importa, mas casais inter-raciais ligados ao poder ainda motivam debate

É PROFESSOR DE DIREITO DA UNIVERSIDADE SYRACUSE, KEVIN , NOBLE MAILLARD, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE DIREITO DA UNIVERSIDADE SYRACUSE, KEVIN , NOBLE MAILLARD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2012 | 03h05

Qual a maneira mais confiável de destruir uma carreira política? Estripulias financeiras, registros criminais ou farras universitárias são venenos confiáveis, mas geralmente é o escândalo sexual apimentado que faz a casa cair. Jack Ryan, que concorreu ao Senado (por algum tempo)contra Barack Obama, nos deu clubes sexuais parisienses. Mark Sanford, ex-governador da Carolina do Sul, famosamente excursionou pela Trilha dos Apalaches. E o ex-senador John Edwards ofereceu uma mistura corrosiva de "o que esperar quando se está esperando".

Adicionem raça à questão - particularmente relações inter-raciais - e a lascívia política extrapola. A confluência de miscigenação e política incide sobre a ansiedade fundamental com fronteiras raciais nos EUA. Ela tem sido uma puxadora de tapete de carreiras desde que os EUA se tornaram uma república.

Quando um candidato é de uma raça, e a esposa, parceira, "amiga", de outra, os adversários encontram um coquetel combustível para remexer nas inseguranças dos eleitores. Perguntem ao fantasma de Thomas Jefferson, que enfrentou décadas de censuras sobre seu relacionamento com Dusky Sally, sua escrava mestiça que lhe deu seis filhos mestiços. Considerem Richard Johnson, vice-presidente de Martin Van Buren, a quem a imprensa condenou por tomar "uma rapariga negra, retinta, beiçuda, malcheirosa" como sua esposa em união estável; dando um salto para frente até Harold Ford Jr., que foi difamado em sua campanha para o Senado, em 2006, no Tennessee como um playboy amante de mulheres brancas. Para essas figuras - apenas algumas de muitas - a linha da cor desenhou anéis em torno de sua reputação.

Por que um relacionamento inter-racial torna-se uma ligação política perigosa? Para a maioria das pessoas, sexo e relacionamentos são ações privadas, mas para figuras públicas, a vida íntima vira notícia.

Junte-se raça à mistura e ela provoca inquietações. Obama teve uma namorada branca na universidade? A ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, pode ou não ter saído com um atleta negro? Há nobres europeus de descendência negra e asiática (Lichtenstein e Dinamarca)? No mínimo, esses emparelhamentos são imaginativamente interessantes. Mas por que isso importa? Teoricamente, não há nenhuma barreira legal.

Em 1967, em Loving vs. Virgínia, a Suprema Corte tornou o casamento inter-racial acessível a todos, em todos os Estados. Mas um caso transformador não transforma automaticamente a opinião pessoal. Algumas jurisdições não cumpriam a decisão. Por voto popular, a Carolina do Sul e o Alabama foram os últimos Estados a derrubar suas proibições em 1998 e 2000. Apesar de uma lei como essa ser inaplicável, 40% dos eleitores do Alabama votaram para conservar o estatuto na Constituição estadual.

As opiniões sobre relacionamentos inter-raciais são como opiniões sobre Marmite (famosa pasta alimentícia britânica) ou cruzeiros. São extremamente partidárias e raramente cordiais. Para alguns, a mistura racial é difícil, confusa ou ofensiva. Para outros, relacionamentos inter-raciais demonstram à perfeição a desimportância da raça.

Coletivamente, os americanos professam um amor pelo daltonismo. Apontam o presidente multirracial como prova de que as barreiras raciais foram quebradas. Repetem a ideia de Martin Luther King Jr. de que não é o que está do lado de fora que importa. Mas um exame atento da declaração comum de "raça não importa" revela omissão e desconforto. Esse diagnóstico geralmente depende de um de dois sintomas: deficiência visual (eles não "veem cor") e ilusão de arco-íris (não se importar se uma pessoa é "negra, branca, púrpura ou verde"). É um enigma impossível: como a raça pode ser simultaneamente uma irrelevância e uma obsessão? Não surpreende que esses defeitos ópticos sejam rapidamente curados na escolha de bairro, escola e relações íntimas.

A liberdade de associação, ou um nível íntimo, não se aplica a figuras políticas. Quando se trata de expor falhas de candidatos, a raça é um impulso familiar de indignação.

O ex-senador Bob Bennett, republicano de Utah, compreende isso. Em 1999, ele identificou publicamente as duas coisas que poderiam ter impedido a nomeação de George W. Bush na chapa republicana.

Os únicos obstáculos, declarou Bennet, seriam se Bush "se atirasse na frente de um ônibus ou se surgisse alguma mulher, uma mulher negra por exemplo, com um filho ilegítimo dele".

Bennet errou ridiculamente ao culpar uma negra e o transporte público pela queda de figuras políticas. Mas também acertou perversamente ao articular os persistentes e antiquados medos que há muito eram, legalmente falando, vazios.

A miscigenação é a carta da raça original. Acusações afetaram todas convicções políticas e raças, a um ponto em que a fixação torna-se o elemento definidor do candidato. Jefferson certamente não está só nas acusações que sofreu. Os adversários de Abraham Lincoln publicaram uma charge de campanha, "O Baile da Miscigenação", que caricaturava um regime inter-racial onde homens brancos e mulheres negras dançavam, flertavam e farreavam livremente.

A carta inter-racial também afeta relações não escandalosas e não secretas em política, apesar de o casamento inter-racial ter aumentado quase 30% nos últimos 10 anos. Pouquíssimas figuras públicas na história americana se casaram com uma pessoa de outra raça, o que indica uma curiosa relação entre mistura racial e elegibilidade. Apesar de o casamento inter-racial permanecer relativamente raro, com 8,4% de todos os casamentos, no reino político ele é praticamente evitado.

No entanto, casamentos inter-raciais às vezes podem ter efeitos políticos benéficos.

Quando concorria para promotor público em Nova York, Bill de Blasio colocou seu casamento inter-racial no centro de sua campanha. Em Utah, Mia Love, que é haitiano-americana e mórmon, está concorrendo à Câmara como republicana, apoiada afetuosamente por seu marido Jason, que também é mórmon. Como a vida familiar é uma parte típica da narrativa de um candidato, algumas figuras públicas conseguiram transcender com sucesso ao escrutínio racial para demonstrar assimilação e pertencimento a uma comunidade.

Essas histórias de sucesso não serão uma prova de que a discriminação de jure é uma coisa do passado? Não se deveria estar pensando na substância do caráter em vez de rediscutir os caprichos da cor? Nos EUA, onde as eleições amiúde são um referendo sobre o caráter de um candidato, vota-se não só em indivíduos, mas também nos ambientes inteiros em que eles vivem e amam. Consideram-se suas ideologias, sua personalidade, seus passados e seus relacionamentos.

Os EUA se apropriaram liberalmente do mantra de que a raça é menos importante que o conteúdo do caráter de um candidato. Para concretizar sua verdadeira intenção, sem enfraquecer sua força mítica, isso deveria se estender também a cor da pele de sua companhia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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