Miséria e anos de violência: os combustíveis da crise timorense

A crise que atingiu o Timor Leste nesta segunda-feira, 11, com atentados contra as vidas do presidente, José Ramos-Horta, e do primeiro-ministro, Xanana Gusmão, começou há quase dois anos, quando o então primeiro-ministro Mari Alkatiri dispensou cerca de 600 militares do Exército considerados rebelados pelo governo.   Os soldados, a maioria da região oeste do país, reclamavam de discriminação pelos seus líderes do leste, e se uniram numa onda de protestos. Gangues de jovens de diferentes partes do país intensificaram a violência. As semanas de enfrentamentos, encerradas com a chegada de tropas australianas enviadas ao país, resultaram na morte de  pelo menos 37 pessoas e o deslocamento de mais de 150 mil.   Alfredo Reinado, o líder rebelde   Alfredo Reinado, um soldado treinado pela Austrália e que subiu na hierarquia da polícia militar do Timor Leste, foi um dos comandantes que aderiu à rebelião. Ele liderou uma das facções rebeldes e pedia que suas tropas fossem reintegradas ao ?Exército. Depois que os acordos de paz chegaram ao país, vários rebeldes abandonaram as batalhas. Reinado foi um deles, mas acabou sendo preso por posse ilegal de armas. Um mês após a prisão, ele foi identificado entre os 50 fugitivos de uma prisão do país.   Após se manter nas montanhas, em março de 2007 o líder rebelde roubou armamento da polícia. Sob ordens de encontrá-lo, tropas australianas mataram cinco membros do grupo rebelde, mas Reinado novamente escapou. Ramos-Horta ordenou o cancelamento da perseguição a Reinado, pedindo que o rebelde se rendesse. Uma força tarefa foi formada para coordenar o diálogo.   Renaldo continuou foragido. Em novembro de 2007, ele ameaçou levar suas tropas para Díli, capital do país, caso não fosse reintegrado ao exército. "A situação de instabilidade desse país ficará pior que durante a crise do  ano passado", prometeu para uma multidão em Gleno, cidade a 30 quilômetros de Díli.   Em janeiro, a Suprema Corte adiou para 4 de março a primeira audiência do julgamento de Reinado e de 17 rebeldes acusados de homicídio e insurreição.   A tensão no Timor Leste voltou a se intensificar neste mês, quando rebeldes fiéis ao ex-comandante do Exército atiraram contra um pelotão de soldados australianos que patrulhava as imediações de Díli.   Origens da crise   As raízes do conflito, no entanto, remetem aos 24 anos de enfrentamentos entre rebeldes e o governo de ocupação indonésio, que só deixou o Timor em 1999. Isso porque os militares revoltados são na sua maioria timorenses da parte oeste do país, os "loromonos", que durante a luta contra a ocupação indonésia defenderam a anexação do território ao país vizinho. Já a cúpula do exército é formada majoritariamente pelos "lorosaes", ex-guerrilheiros da parte leste da ilha que defenderam a independência. À instabilidade gerada por essa disputa étnica, somam-se fatores como a complicada situação econômica e social do país, devastado pelos anos de guerra civil. Anos de dominação Embora a crise atual gere perplexidade, ela surge como um capítulo quase "natural" da tumultuada trajetória do país.  Uma das nações independentes mais jovens do planeta, o Timor Leste teve sua história marcada por centenas de anos de dominação estrangeira.  Por mais de 450 anos foi dominado por Portugal, que manteve o país como colônia até 1975. A retirada portuguesa, no entanto, não garantiu a independência. Apesar da entrega do território à Frente Revolucionária de Timor Leste (Fretilin), o espaço deixado por Portugal foi logo ocupado pela Indonésia.  Invadido pelas forças do general Suharto, presidente do país vizinho, poucas semanas após adquirir autonomia, o Timor Leste foi anexado à Indonésia já em 1976, transformando-se na província de "Timor Timur". Em revide, parte da população timorense organizou-se em guerrilhas. Em 1979, o atual primeiro-ministro do Timor Leste, Xanana Gusmão, assume a liderança das forças rebeldes do país.  A resposta do governo indonésio veio em uma onda de violência que resultou na morte de milhares de pessoas. Uma das estratégias das forças armadas do governo de Jacarta para combater os guerrilheiros, que costumavam se esconder na densa vegetação do território, foi a utilização de bombardeios com napalm. Finalmente, a independência Após 24 anos de enfrentamentos e com o acirramento da pressão internacional, em 1999 o governo indonésio aceita realizar um plebiscito sobre a independência do país. Com o resultado da votação favorecendo a independência, uma nova onda de massacres e destruição atinge o país. Dezenas de timorenses e cinco funcionários da ONU morrem em ações armadas de grupos pró-Indonésia. Mais de 75% da população do país (ou 200 mil pessoas) são obrigadas a deixar suas casas, e quase 70% da infra-estrutura nacional é destruída. O fim da violência só veio com a intervenção de tropas de paz da ONU, em 20 de novembro de 2002, que ajudou a estabelecer um governo de transição no país. Durante esse período - entre 1999 e 2002 - o responsável pela Administração Transitória da ONU para o Timor Leste foi o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto em 2003 em missão no Iraque. As primeiras eleições presidenciais da história do Timor Leste aconteceram em abril de 2002. O ex-prisioneiro e líder guerrilheiro Xanana Gusmão é eleito presidente, assumindo em maio do mesmo ano.  "Nossa independência não terá valor se todo o povo do Timor Leste continuar a viver em pobreza e a sofrer toda espécie de dificuldade", disse o presidente ao assumir o cargo. Embora popular como símbolo da resistência contra a ocupação indonésia, Xanana Gusmão não conseguiu sanar as necessidades do país mais pobre da Ásia em seus quatro anos de governo. Quando assumiu o cargo, 77% da população estava desempregada e a renda média não passava dos US$ 0,55 diários. Mesmo contanto com reservas de petróleo e gás, os avanços foram ínfimos: o país ocupa hoje o 140º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, e a taxa de desemprego ainda atinge 50% de seus habitantes.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.