Miséria e histórico de violência, os combustíveis do conflito timorense

A onda de violência que desde o final de abril já deixou ao menos 27 mortos no Timor Leste teve como ponto de partida uma revolta liderada por recrutas do exército que reclamavam de maus-tratos e discriminação por parte dos oficias da corporação. As raízes do conflito, no entanto, remetem aos 24 anos de enfrentamentos entre rebeldes e o governo de ocupação indonésio, que só deixou o Timor em 1999. Isso porque os militares revoltados são na sua maioria timorenses da parte oeste do país, os "loromonos", que durante a luta contra a ocupação indonésia defenderam a anexação do território ao país vizinho. Já a cúpula do exército é formada majoritariamente pelos "lorosaes", ex-guerrilheiros da parte leste da ilha que defenderam a independência. À instabilidade gerada por essa disputa étnica, somam-se fatores como a complicada situação econômica e social do país, devastado pelos anos de guerra civil. Além disso, com a saída das forças de paz das Nações Unidas, no início de 2005, o Timor Leste sofre um vácuo de autoridade que o presidente Xanana Gusmão tenta preencher agora, ao assumir o comando das forças de segurança timorenses. Nesta terça-feira (30), o presidente decretou estado de emergência, medida que lhe garante o controle do Exército e da polícia do país. Anos de dominação Embora a crise atual gere perplexidade, ela surge como um capítulo quase "natural" da tumultuada trajetória do país. Uma das nações independentes mais jovens do planeta, o Timor Leste teve sua história marcada por centenas de anos de dominação estrangeira. Por mais de 450 anos foi dominado por Portugal, que manteve o país como colônia até 1975. A retirada portuguesa, no entanto, não garantiu a independência. Apesar da entrega do território à Frente Revolucionária de Timor Leste (Fretilin), o espaço deixado por Portugal foi logo ocupado pela Indonésia. Invadido pelas forças do general Suharto, presidente do país vizinho, poucas semanas após adquirir autonomia, o Timor Leste foi anexado à Indonésia já em 1976, transformando-se na província de "Timor Timur". Em revide, parte da população timorense organizou-se em guerrilhas. Em 1979, o atual presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão, assume a liderança das forças rebeldes do país. A resposta do governo indonésio veio em uma onda de violência que resultou na morte de milhares de pessoas. Uma das estratégias das forças armadas do governo de Jacarta para combater os guerrilheiros, que costumavam se esconder na densa vegetação do território, foi a utilização de bombardeios com napalm. Finalmente, a independência Após 24 anos de enfrentamentos e com o acirramento da pressão internacional, em 1999 o governo indonésio aceita realizar um plebiscito sobre a independência do país. Com o resultado da votação favorecendo a independência, uma nova onde de massacres e destruição atinge o país. Dezenas de timorenses e cinco funcionários da ONU morrem em ações armadas de grupos pró-Indonésia. Mais de 75% da população do país (ou 200 mil pessoas) são obrigadas a deixar suas casas, e quase 70% da infra-estrutura nacional é destruída. O fim da violência só veio com a intervenção de tropas de paz da ONU, em 20 de novembro de 2002, que ajudou a estabelecer um governo de transição no país. Durante esse período - entre 1999 e 2002 - o responsável pela Administração Transitória da ONU para o Timor Leste foi o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto em 2003 em missão no Iraque. As primeiras eleições presidenciais da história do Timor Leste aconteceram em abril de 2002. O ex-prisioneiro e líder guerrilheiro Xanana Gusmão é eleito presidente, assumindo em maio do mesmo ano. "Nossa independência não terá valor se todo o povo do Timor Leste continuar a viver em pobreza e a sofrer toda espécie de dificuldade", disse o presidente ao assumir o cargo. Embora popular como símbolo da resistência contra a ocupação indonésia, Xanana Gusmão não conseguiu sanar as necessidades do país mais pobre da Ásia em seus quatro anos de governo. Quando assumiu o cargo, 77% da população estava desempregada e a renda média não passava dos US$ 0,55 diários. Mesmo contanto com reservas de petróleo e gás, os avanços foram ínfimos: o país ocupa hoje o 140º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, e a taxa de desemprego ainda atinge 50% de seus habitantes.

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