Miséria, violência e a fronteira de aço

No bairro de Rancho Escondido, em Tijuana, México, César Ballestero coletava lixo reciclável ao longo da fronteira de aço com os Estados Unidos e J. Diego comentava um novo meio para se reunir à família do outro lado. A 100 quilômetros dali, Jorge Martínez e Eric Hernández esperavam ser chamados para um bico na vizinhança de um hipermercado da construção de San Diego. Angel Saldiva saía para a escola secundária enquanto Rubén Barrales presidia a Câmara de Comércio de San Diego e relembrava seu passado como assessor do ex-presidente George W. Bush.

, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

O Posto de Fronteira San Isidro interpunha-se entre os dois grupos. Ali circulam sob o amparo da lei cerca de 50 milhões de pessoas ao ano. Depois, está o muro de aço que se estende da praia ao deserto e as travessias ilegais. As histórias desses mexicanos têm como elo a lógica do mercado de trabalho. Os pais de Barrales chegaram aos EUA como "braceros", a mão de obra mexicana que substituiu nas fábricas e lavouras os americanos alistados na 2.ª Guerra. Foram assimilados pela sociedade e seus filhos concluíram a universidade e falam espanhol com sotaque inglês.

Os pais de Saldiva cruzaram a fronteira por San Isidro com tranquilidade na década de 80, mas somente neste ano receberão os documentos de residentes nos EUA. Segundo o estudante, essa situação trazia insegurança para a família, da mesma forma que a construção da nova cerca, a partir de 2006, trouxe temores entre os colegas da escola. "Não entendemos a razão disso tudo", afirmou Saldiva, voluntário do grupo Anjos da Fronteira.

Desde 1986, a travessia implica em risco e na certeza de não desfrutar dos elevados padrões de vida de San Diego. Mas continua ativa porque ainda há demanda por trabalho, mesmo que reduzida. Ballestero, de 34 anos, tem a mulher e os cinco filhos vivendo em San Diego, de onde foi deportado em 2000 por "dirigir drogado". Conforme afirmou, não se importaria de colher morangos em troca de baixo salário e em condições de trabalho não aceitas pelos americanos. Residente em Rancho Escondido, J. Diego reencontrou-se com a mulher e os três filhos desde que foi deportado dos EUA por "pequenos delitos". "É só juntar os US$ 3 mil para o "coiote" e eu tento de novo."

Martínez e Hernández executam tarefas de construção civil por US$ 10 (R$ 17) a hora. Com a crise econômica, o movimento caiu. Em cinco dias, Martínez, de 45 anos, havia feito apenas dois bicos e dizia sustentar a mulher e os cinco filhos com as doações de comida e de roupas da igreja. Eric, de 23 anos, pagou US$ 1.500 ao "coiote" que o trouxe até o cassino Las Viejas. No caminho, topou com assaltantes que levaram suas roupas, seus tênis e seus US$ 500. Mas sua vida familiar o empurra à Califórnia. Foi deixado com os avós há 20 anos, quando seus pais emigraram para os EUA.

A violência no México também empurra seus cidadãos à fronteira e, em seguida, aos EUA. Antonio Ríos Galiana, de 52 anos, deixou a família em Sinaloa depois que o cartel para o qual trabalhava caiu. Perseguido pelo bando vencedor, foi para Rancho Escondido. "Vivo na pobreza, mas prefiro ser maltratado no meu país", afirmou ele, ainda não interessado em emigrar.

Roberto Aguillar, de 25 anos, não teve escolha. Era sargento das Forças Especiais do Exército mexicano, recebia um soldo de 17 mil pesos mexicanos mensais (US$ 1.413). Mas desertou há quatro meses e cruzou as montanhas entre México e EUA com um amigo após receber ameaças de um cartel de drogas. Mais que qualquer civil, Aguillar sabe que jamais poderia estar em terreno americano sem permissão. "Tenho os papéis prontos para pedir asilo político. Fiz algo bom para meu país, mas terrível para minha família. Meu dever para com o México está cumprido", declarou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.