Miss Liberty chora de vergonha

A votação na Câmara dos Deputados contra a entrada de refugiados é o mais crasso exemplo de arrogância política

Nicholas D. Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2015 | 06h50

Enquanto a histeria suscitada pela questão dos refugiados toma conta de muitos líderes políticos nos EUA, principalmente os republicanos, eu me pergunto o que eles teriam dito a uma família que fugia desesperadamente do Oriente Médio. Todos ouviram falar dessa família: um carpinteiro chamado José, sua mulher Maria, e Jesus, o filho recém-nascido.

Segundo o Evangelho de Mateus, depois do nascimento de Jesus, eles fugiram para salvar o menino da sanha assassina do rei Erodes (o possível equivalente de Bashar Assad, da Síria, de 2 mil anos atrás). Felizmente, José, Maria e Jesus encontraram asilo no Egito – graças a Deus os republicanos não estavam no poder quando Jesus era um refugiado!

A votação na Câmara dos Deputados que efetivamente bateu a porta na cara dos refugiados sírios foi o exemplo mais crasso da arrogância política que toma como bode expiatório o povo mais vulnerável do mundo para ganhar pontos políticos. Como Maria Radford me tuitou depois da votação, “a Estátua da Liberdade deve estar chorando de vergonha”.

Sem dúvida, a segurança é uma preocupação legítima. E não podemos excluir a possibilidade de que um terrorista entre nos EUA em meio aos refugiados. Mas, segundo o Instituto de Política de Migração, entre os fugitivos admitidos nos EUA desde os atentados de 11 de setembro de 2001, houve apenas uma prisão por ato terrorista para cada 250 mil refugiados. Por outro lado, segundo cálculos rápidos que fiz, há talvez uma probabilidade 100 vezes maior de que, por exemplo, um americano da Flórida se transforme num assassino num período de dez anos do que um refugiado se dedique ao terrorismo.

Sejamos realistas: a admissão de refugiados é o canal mais policiado para entrar nos EUA. Mesmo para os iraquianos que trabalharam como tradutores para os nossos militares, arriscando a vida para manter vivos os americanos e conquistar o forte apoio das autoridades dos EUA, o exame dos antecedentes pode levar uns dois anos.

É por isso que os autores do 11 de Setembro não entraram nos EUA como refugiados, mas como estudantes e turistas. Se um grupo terrorista quiser atacar os EUA, enviará pessoas como estudantes ou turistas, munidos de passaportes falsos ou roubados de americanos ou europeus. Em todo caso, os autores dos ataques de Paris identificados até o momento eram de nacionalidade francesa e belga, não síria. É verdade que um deles tinha um passaporte sírio, mas não era seu e provavelmente o objetivo era provocar uma reação contra os sírios.

A estratégia do Estado Islâmico é criar uma situação insustentável no Ocidente entre muçulmanos e não muçulmanos. O sucesso desta estratégia dependerá de nós. Vamos nos calar diante da dura reação que o EI buscava? Quando estamos com medo, tomamos decisões ruins. Foi o que ocorreu na 2.ª Guerra quando negamos refúgio a judeus europeus e confinamos em campos de concentração americanos depois de origem japonesa. E o que ocorreu no 11 de Setembro, quando invadimos o Iraque e passamos a usar a tortura como arma.

George Takei, o ator nipo-americano que viveu num desses campos por quatro anos quando criança, postou no Facebook depois dos ataques de Paris a seguinte mensagem: “Não há dúvida de que alguns verão em cada imigrante e refugiado o inimigo em razão destes ataques, pois eles se parecem com os que cometeram os ataques, assim como os pacíficos nipo-americanos foram vistos como inimigos depois de Pearl Harbor. Mas devemos resistir à pressa de dividir as pessoas em categorias e de desumanizá-las, pois foi este simples impulso que alimentou a insanidade e a violência cometidas esta noite”.

A demagogia nesta questão me revolta porque sou filho de refugiado. Há cerca de 65 anos, meu pai armênio-polonês-romeno vagava pela Europa como os refugiados sírios hoje. E, como os americanos decidiram arriscar no caso dele, hoje estou em condições de escrever este apelo para que se estabeleça uma empatia semelhante.

Evidentemente, alguns sírios são terroristas, mas algumas das pessoas que eu mais admiro no mundo são médicos sírios e Capacetes Brancos, como são chamados os voluntários que ajudam as vítimas da violência. Os republicanos da Câmara gostariam de impedir a ação destes heróis, de proibir o ingresso das próprias vítimas yazidis e cristãs dos terroristas.

Os líderes republicanos afirmam que querem apenas garantir a segurança dos EUA. Era o que certos oficiais americanos declararam no final dos anos 30 e início dos 40 quando impediram o ingresso de refugiados judeus. Breckinridge Long, então funcionário do Departamento de Estado, encarregado da concessão de vistos, alertou que espiões nazistas tentavam entrar nos EUA como refugiados. E, em nome da segurança, estabeleceu normas tão rigorosas que poucos judeus obtiveram a autorização.

“Nós podemos atrasar e efetivamente impedir por um período indefinido o ingresso dos imigrantes”, ele se vangloriou num memorando de 1940. Suas exigências insensíveis em nome da segurança provocaram a morte de dezenas de milhares de judeus. De fato, a segurança era uma preocupação legítima na época, assim como é agora, mas a segurança deve ser temperada com o bom senso e um pouco de coração. Procurar ajudar de maneira segura os refugiados em seu desespero não é ingenuidade, não é sentimentalismo. É humanidade./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

NICHOLAS D. KRISTOF É COLUNISTA DO THE NEW YORK TIMES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.