Missa que exaltou caráter conciliador de Mandela aproxima EUA e Cuba

Durante a primeira cerimônia oficial do funeral do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, Barack Obama e Raúl Castro trocam um raríssimo aperto de mão

Andrei Netto e Rafael Moraes Moura, enviados especiais Johannesburgo,

10 de dezembro de 2013 | 23h02

JOHANNESBURGO - Os presidentes dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, foram protagonistas ontem, em Johannesburgo, na África do Sul, de um raro aperto de mão entre chefes de Estado de países rivais. Inesperado, o gesto ocorreu diante da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, na primeira da série de cerimônias em memória de Nelson Mandela, morto na quinta-feira.

A cordialidade ocorreu quando Obama foi chamado ao púlpito no qual realizaria seu discurso em homenagem ao ex-presidente sul-africano. No caminho, ele cruzou com o cubano, dirigindo-se a ele. Então inclinou-se ligeiramente, por ser mais alto, e ofereceu a mão. Raúl cumprimentou o americano e sorriu. Obama retribuiu o sorriso, o que colocou a saudação acima do protocolar.

A imagem captada por emissoras de TV e por fotógrafos rodou o mundo, mas não causou nenhum comentário de Obama. Horas depois, a bordo do avião presidencial Air Force One, o conselheiro de Segurança Nacional, Ben Rhodes, explicou aos jornalistas que acompanhavam a delegação que o gesto foi espontâneo, "uma cortesia" em meio à comoção internacional provocada pela morte de Mandela. "Nada foi planejado (pelo presidente), além de seu discurso", garantiu Rhodes. "Ele realmente não fez mais do que trocar cumprimentos com os líderes enquanto se dirigia para discursar. Não foi uma conversa substancial."

Raúl qualificou como "normal" e "civilizado" o aperto de mão. "Normal, somos civilizados", disse. O site Cubadebate, a principal página do governo de Cuba na internet, destacou o encontro dos dois e pediu que o gesto "seja o princípio do fim da agressão dos EUA a Cuba".

Segundo analistas ouvidos pelo Estado nos EUA, o aperto de mão entre Obama e Raúl não deve ser interpretado como uma mudança substancial na política americana para Cuba. Medidas de flexibilização do embargo econômico estão congeladas desde 2009, depois da prisão, em Havana, de Alan Gross, americano condenado a 15 anos de prisão, em 2011, sob a acusação de conspirar contra o Estado cubano. Sem sua libertação e avanços na situação dos direitos humanos, é pouco provável que Obama reveja o embargo.

REPERCUSSÃO

O aperto de mão, no entanto, ocupou as redes sociais e muitas manchetes nos EUA. Os republicanos reagiram com fúria. "Às vezes, um aperto de mão é apenas um aperto de mão. Mas, quando o líder do mundo livre aperta a mão ensanguentada de um ditador, ele se torna um golpe de propaganda para um tirano", declarou a deputada Ileana Ros-Lehtinen, que fugiu de Cuba com sua família quando criança. Hector Szhamis, professor da Universidade Georgetown, não viu no gesto um sentido político transcendental. "Acredito que foi um cumprimento protocolar", disse ele ao Estado.

Para Peter Hakim, presidente emérito do instituto Diálogo Interamericano, de Washington, foi o contexto da cerimônia a Mandela que levou ao aperto de mão. "Seria estranho Obama não estender a mão ali, enquanto todo seu discurso na cerimônia era sobre a reconciliação. Mas não acredito que o gesto seja o prenúncio de uma grande mudança nas relações entre Havana e Washington", afirmou.

SILÊNCIO

As palavras trocadas por Obama e Raúl não foram divulgadas, mas a imagem contrastou com a beligerância histórica entre os dois países. Desde que Fidel Castro assumiu o poder, em 1959, após a Revolução Cubana, e desde o rompimento diplomático entre EUA e Cuba, em 1961, um gesto semelhante só foi realizado por Bill Clinton e Fidel em 2000 - sem consequências políticas ou sobre o embargo econômico, em vigor desde 1962.

Dentre os mais importantes líderes estrangeiros que compareceram à cerimônia, nenhum se pronunciou sobre o significado do aperto de mão. Questionado pelo Estado, Tony Blair, ex-premiê da Grã-Bretanha, ouviu a pergunta, mas calou-se e encerrou a entrevista.

Depois de apertar a mão de Raúl, Obama cumprimentou Dilma. Foi a primeira vez que os dois se encontraram desde a cúpula do G-20, na Rússia, em setembro, quando houve o desentendimento sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Brasil, que resultou no cancelamento da visita de Dilma a Washington.

Após os cumprimentos, Obama discursou por cerca de 20 minutos e ressaltou o papel de Mandela na luta pelos direitos civis e contra o racismo, comparando-o a líderes históricos, como Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi e Martin Luther King. "Madiba foi o último libertador do século 20", afirmou, para delírio da multidão, que vaiou apenas o presidente sul-africano, Jacob Zuma. "Coube a um homem como Madiba libertar não apenas o prisioneiro, mas também o carcereiro e mostrar que é preciso confiar no outro para receber confiança." / COM ROBERTO SIMON E CLAUDIA TREVISAN

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