Monirul Alam / EPA / EFE
Monirul Alam / EPA / EFE

Missão da ONU denuncia Facebook por papel em difusão do ódio contra rohingyas em Mianmar

Investigação da entidade acusa comando militar do país de genocídio e crimes contra humanidade; rede social anuncia medidas para fechar páginas e banir militares

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 07h32

GENEBRA - Uma missão da ONU teceu duras críticas contra o Facebook por sua incapacidade de impedir que a plataforma seja utilizada para a difusão do ódio por parte do regime de Mianmar contra a minoria rohingya. Em silêncio por meses diante das investigações da entidade, a rede social decidiu na manhã desta segunda-feira, 27, banir o comandante-chefe do Exército do país, Min Aung Hlaing, além de outros membros do governo.

A investigação concluiu que o alto comando militar de Mianmar deve ser levado aos tribunais por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Mas um dos aspectos destacados foi o papel das redes sociais, mesmo em um dos países mais fechados do mundo.  

“O papel das redes social é significativo”, afirmou o inquérito. “O Facebook tem sido um instrumento útil para aqueles que queiram difundir um discurso de ódio”, alertou. “Ainda que a resposta (da empresa) tenha melhorado nos últimos meses, ela foi lenta e ineficiente”, apontou a missão.  

“A dimensão pela qual posts e mensagens no Facebook levaram à discriminação no mundo real e à violência deve ser examinado completamente e de forma independente”, disse a ONU. “A missão lamenta que o Facebook tenha sido incapaz de dar dados de países sobre a difusão de um discurso de ódio em sua plataforma, o que é imperativo para avaliar a resposta”, destacou o relatório.

Uma das autoras do texto, Radhika Coomaraswamy, insistiu em Genebra nesta segunda-feira que “chegou a hora de a comunidade internacional olhar para esse fenômeno das redes sociais”. “Talvez isso não seja apenas um assunto para Mianmar. É um assunto sério e que deve ser examinado.”

Em uma resposta publicada nas redes sociais, a direção do Facebook qualificou a violência em Mianmar como “verdadeiramente horrível”. “Ainda que tenhamos sido muito lentos em agir, estamos agora fazendo progresso”, justificou o grupo. “Hoje, estamos removendo um total de 18 contas, uma conta de Instagram e 52 páginas seguidas por quase 12 milhões de pessoas.”

Entre as páginas banidas estão ainda a da rede de televisão dos militares, Myawady. “Queremos impedir que essas pessoas possam usar nossos serviços para inflamar a tensão étnica e religiosa”, disse a empresa.

Além dos envolvidos diretamente nos crimes, a plataforma também indicou que removeu 46 páginas e 12 contas que estariam, de forma coordenada, promovendo a mensagem dos militares de Mianmar.

Campanha de ódio

A responsabilidade central, porém, recai sobre o governo. “A missão (da ONU) está profundamente preocupada com a prevalência de um discurso de ódio, offline e online”, disse. “Uma linguagem que estigmatize os rohingya e os muçulmanos em geral tem sido um componente da campanha para proteger a etnia e a religião, promovidos por grupos extremistas de budistas”, explicou.

Nessa campanha de ódio, as mensagens insistem que os rohingyas “não existem ou não pertencem a Mianmar”. “O impacto dessa retórica tem sido completada com a difusão de informação falsa e apelo a ações patrióticas”, disse a ONU. De acordo com a investigação, o governo e os militares “promoveram um clima em que o discurso de ódio ganha força e a violência é facilitada”.

A missão da ONU, em seu documento, apela para que a cúpula do regime de Mianmar seja formalmente levada ao Tribunal Penal Internacional ou que se crie uma corte especial, assim como aconteceu nos casos de Ruanda e nas repúblicas que formavam parte da Iugoslávia. O inquérito sugere também que sanções individuais sejam aplicadas contra os responsáveis pelos crimes.

Sobre a repressão registrada em agosto de 2017, que levou a um êxodo em massa no Estado de Rakhine, a missão alerta que foi uma “catástrofe que se esperava por décadas”. Naquele momento, o grupo armado do Arsa realizou uma ofensiva sobre os militares que deixou 20 soldados mortos. Isso levou o governo a responder com uma violência inédita na região, o que deu origem a quase 750 mil refugiados nos meses que se seguiram e ao menos 10 mil mortos.

A “operação limpeza”, porém, não foi apenas uma resposta aos ataques do Arsa. De acordo com a investigação, tropas do governo já haviam se posicionado na região, apenas esperando uma ocasião para agir. O fato de o governo ter atacado em questões de horas de forma “brutal” sugere que houve um “pré-plano”.

Para a missão da ONU, a situação foi “o resultado inevitável de uma opressão severa, sistêmica e institucionalizada do nascimento à morte”. Além disso, essa população rohingya era prejudicada por restrições de movimento e liberdade, além de ser excluída de qualquer cidadania.

O relatório expõe ainda assassinatos em massa, estupros generalizados, destruição de vilarejos e a tortura de crianças diante de seus pais. Para reforçar as provas, a missão usou imagens de satélite que mostram como cidades com maioria muçulmana foram destruídas, enquanto locais com a etnia rakhine foram preservados.

Em um dos relatos colhidos pela missão da ONU, uma mulher que sobreviveu aos ataques contou que teve a “sorte de ter sido estuprada por apenas três soldados.”

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