Missão impossível no Timbuctu

Milhares de manuscritos milenares foram salvos de jihadistas em uma operação espetacular

É JORNALISTA, SUDARSAN, RAGHAVAN, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTA, SUDARSAN, RAGHAVAN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2013 | 02h04

Eram sete horas da noite em agosto e Hassine Traore estava inquieto. Conduzia dez burros, cada um carregando dois grandes sacos de arroz repletos de manuscritos antigos, cobertos de plástico para protegê-los da chuva.

Ele fugia dos radicais islâmicos que tinham aproveitado um golpe de Estado em Mali para ocupar o norte do país. Com certeza, teriam queimado os manuscritos - quase 300 mil páginas dedicadas a islamismo, direito, medicina, matemática e astronomia, guardados em bibliotecas públicas e privadas da cidade. Os documentos retratam o islamismo como uma religião historicamente moderada e intelectual. São considerados tesouros culturais pelas instituições ocidentais - razões suficientes para os jihadistas desejarem destruí-los. A Fundação Ford, com sede em Nova York, os governos holandês e alemão e um centro islâmico em Dubai financiaram a retirada, que custou US$ 1 milhão.

Ao capturar Timbuctu, em abril de 2012, os jihadistas escolheram como sua base o Instituto Ahmed Baba, biblioteca pública e centro de pesquisa. Expulsaram funcionários e colocaram o nome da organização numa parede: "Ansar al-Dine" ou "Defensores da Fé".

Nos séculos 15 e 16, Timbuctu foi um centro de cultura islâmica. Tinha uma universidade e escolas islâmicas que atraíam estudiosos e estudantes do Cairo, de Bagdá e outros pontos do Oriente Médio. Alguns traziam textos muçulmanos sagrados. Outros produziram milhares de manuscritos, escritos à mão em língua árabe ou africana, às vezes em letras douradas.

Ao que parece, de início os jihadistas não sabiam o valor dos manuscritos. Mas depois de notícias na TV local sobre eles, foram ao instituto e perguntaram se os manuscritos encontravam-se ali. "Respondemos que o centro estava vazio e todo o material havia sido transferido para o centro novo, onde eles estavam", disse Abba al-Hadi, guarda de 72 anos e avô de Traore, que guarda as chaves do local. Na realidade, a maior parte dos manuscritos estava ali.

Havia pressa na operação. A estação das chuvas estava próxima e era época de fazer os reparos anuais do teto do velho centro para proteger os manuscritos. Isso chamaria a atenção dos jihadistas. Em julho, uma missão de Bamako foi enviada a Timbuctu. O objetivo era retirar parte dos manuscritos para testar o controle dos islamistas.

Durante o dia, membros da equipe ficavam com parentes e amigos. À noite, trabalhavam no velho centro, depositando o máximo de manuscritos em dois baús de metal - muito usados para embalar roupas, eles não chamariam atenção. A equipe pôs os baús num caminhão e viajou 965 quilômetros para Bamako, sem incidentes.

A tática foi repetida nas duas semanas seguintes em seis operações, e a chuva acabou ajudando. Os jihadistas não se encontravam nos postos de controle, preferindo ficar abrigados. Colocados em baús, os manuscritos foram escondidos em caminhões de carga. Outros foram levados de canoa pelo Rio Níger, até chegarem num refúgio seguro.

No final, 2.453 documentos foram retirados, com 278 mil páginas. Nada pôde ser feito com relação às 16 mil páginas arquivadas na nova biblioteca, onde os jihadistas se alojaram. Dias antes de as forças francesas entrarem na cidade, eles queimaram quatro mil páginas que estavam na sala de restauração. Eles nunca foram até o porão, onde 12 mil páginas, guardadas em gavetas metálicas, foram salvas graças a sua ignorância. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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