Esteban Biba/EFE
Esteban Biba/EFE

Missionário brasileiro diz que países estão jogando migrantes em matadouros

Desde o início da crise humanitária que levou o êxodo centro-americano para os EUA, organização administrada por Mauro Verzeletti na capital guatemalteca tem prestado atenção abrangente a mais de 30 mil migrantes na região

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 17h52

CIDADE DA GUATEMALA - O padre brasileiro Mauro Verzeletti, missionário de São Carlos Scalabrinianos e diretor da Casa de Migrantes da Guatemala, advertiu nesta segunda-feira, 17, que os Estados Unidos, México e o norte da América Central estão jogando pessoas "no matadouro" com os acordos de imigração assinados no ano passado.

A política de imigração adotada pelo governo do presidente americano, Donald Trump, seguida em maior ou menor grau pelo México, Honduras, El Salvador e Guatemala - que concordaram em se tornar um "terceiro país seguro" - foi uma "demonstração muito clara de ignorância", disse, em entrevista à agência EFE.

Desde o início da crise humanitária que levou o êxodo centro-americano para os Estados Unidos com as chamadas caravanas de migrantes, a organização administrada por Verzeletti na capital guatemalteca tem prestado atenção abrangente a mais de 30 mil migrantes na região.

Verzeletti tem testemunhado há 22 anos, quando fundou a Casa de Migrantes, na Guatemala, de como a migração irregular tem variado. Mas ele não tinha visto nada parecido com o que está acontecendo agora: "Uma ignorância que viola o sistema de asilo e a proteção internacional aos migrantes".

As pessoas deixam países onde há "condições extremamente violentas", afirma o religioso, mas, com os planos do governo dos EUA e replicados pelos presidentes dos países envolvidos, os migrantes "são devolvidos para a mesma região, com uma carta de entendimento na qual estamos jogando pessoas para o matadouro e não estamos resolvendo o drama humano".

Um drama histórico cuja dinâmica mudou em 2014, quando menores desacompanhados deram lugar a um cenário anteriormente protagonizado por homens e jovens que, em sua maioria, viajavam de mãos dadas com coiotes e redes de tráfico de pessoas, sob a cumplicidade de governos no poder.

Em 2018, essa mesma dinâmica foi completamente modificada e foram estabelecidas caravanas maciças, convocadas pelos próprios migrantes que, em famílias inteiras, se reuniram em vista de todo o mundo para deixar os abismos de seus próprios países em busca do suposto sonho americano.

Triângulo norte da América Central 

Verzeletti tem acompanhado e estudado esses processos e reflete que a "violência incontrolável" em Honduras, "gangues, crime organizado e narcotráfico que penetraram nas comunidades em El Salvador" e a configuração de poderes a serviço da corrupção na Guatemala têm levado as pessoas a migrar.

Nesses três países, o triângulo norte do istmo, "podemos falar hoje de uma guerra não declarada, na qual mais pessoas morrem do que durante os conflitos armados" na América Central há mais de 30 anos.

O padre scalabriniano lamenta que parte dos governos dos países envolvidos "não tenham compreendido esta mudança no fluxo migratório e não tenha implementado novas políticas para enfrentar essa nova dinâmica". "Em vez disso, eles se comportaram de maneira xenofóbica e racista", disse.

Acima, em Honduras, o presidente Juan Orlando Hernández "é praticamente o braço direito do narcotráfico em todo o país, um narcoEstado, um dos mais exemplares da região".

E na Guatemala, o presidente Jimmy Morales, que deixou o cargo em 14 de janeiro após quatro anos no poder "não queria trabalhar com a comunidade internacional" e trabalhou ao lado do Congresso no "eixo fundamental: o pacto corrupto, sem pensar no povo".

Agora, com o novo governo liderado por 1076819, Verzeletti não "vislumbrou o curso exato que o fluxo migratório vai tomar", embora reconheça algumas ações positivas, como respeitar os direitos humanos dos migrantes durante a caravana de 15 de janeiro, mas com o alarme de ações duras, com estados de prevenção que, em outros países, "não resolveram o problema estrutural subjacente".

O missionário, que em 2018 foi declarado "personagem do ano" pelo jornal guatemanteco Prensa Libre, destaca que os EUA são "um problema para o mundo" na área da migração e apela que, em vez de gastar milhões de dólares em muros, teriam investido em "programas de desenvolvimento para conter o fluxo da migração".

No mesmo ano, o missionário brasileiro e funcionários da organização receberam várias ameaças de morte, culminando com o "fim" da Casa de Migrantes.

Ameaças de morte

Durante semanas, ele, a equipe de trabalho e a instituição contaram com vigilância e segurança 24 horas, seguindo "ameaças muito fortes, duras e sérias".

De qualquer forma, este missionário de 59 anos e com uma longa barba branca continuará a atender migrantes de passagem, aos que ficaram mais tempo em busca de um lugar para morar ou de repatriados sob o acordo de "terceiro país seguro" ou Acordo de Cooperação de asilo.

Além de tudo, a Casa de Migrantes recebeu quase 400 hondurenhos e salvadorenhos enviados pelos Estados Unidos sob o acordo de "terceiro país seguro". Na maioria dos casos, os migrantes retornam aos seus países de origem. /EFE

 

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