Mistério envolve a morte de viúva por antraz

A morte da viúva Ottilie Lundgren, de 94 anos, por contaminação pulmonar do bacilo de antraz B, introduziu um inesperado complicador nas investigações sobre a origem dos ataques de bioterrorismo que mataram quatro outras pessoas nos Estados Unidos nas últimas semanas. Embora todos os casos tenham ocorrido depois dos ataques de dia 11 de setembro, e a maioria tenha envolvido o envio de esporos da bactéria em cartas endereçadas a jornalistas e políticos, com mensagens que faziam referência a Alá, as autoridades policiais e sanitárias não descartam a possibilidade de se tratar de terrorismo doméstico. O caso de Lundgren deixa os especialistas perplexos porque desafia a lógica médica. "Neste caso, estamos além da lógica e trabalhando no campo da imaginação", disse ao Washington Post Martin Hugh-Jones, veterinário da Universidade Estadual de Louisiana e um dos mais respeitados estudiosos da bactéria. Lundgren vivia sozinha em Oxford, na zona rural do Estado de Connecticut, numa casa afastada dos vizinhos, com quem tinha pouco contato. Ultimamente, ela só saia acompanhada de uma sobrinha para ir ao salão de beleza, aos sábados, ou à igreja luterana da cidade, aos domingos. Sua única outra forma de contato físico com mundo era o correio - o veículo dos quinze casos de cartas contaminadas e de três dos quatro casos fatais registrados antes de Lundgren. Mas um primeiro exame das duas centrais regionais de correio em Connecticut que distribuem a correspondência destinada a Oxford não revelou traços da bactéria. A misteriosa contaminação de antraz por Lundgren está sendo tratada na mesma categoria do caso de Kathy T. Ngueyn, uma atendente de hospital que vivia sozinha em Nova York e morreu vítima da bactéria, no dia 31 de outubro passado. A exemplo de Lundgren, Ngueyn, que tinha 61 anos, vivia sozinha. Exames revelaram que o antraz que matou Ngueyn pertence ao "tipo Ames", o mesmo usado nas cartas enviadas a dois senadores, dois jornalistas e que infectaram também os funcionários das centrais de distribuição do correio que entraram em contato com as cartas contaminadas, em New Jersey e em Washington. A informação é importante porque elimina a hipótese de a vítima ter entrado em contato com o antraz encontrado na natureza. Este antraz é identificado como causa da maioria dos 204 casos de antraz cutâneo documentados pela literatura médica nos Estados Unidos desde 1955. Picada de aranha é uma das formas de infecção. As autoridades sanitárias duvidam de que estão diante de uma epidemia. A razão é que nos lugares onde a bactéria ocorre mais comumente, a relação entre o número de infecções por antraz cutâneo e antraz inalado é de duzentos para um. O Post fez as contas e concluiu, por simples dedução lógica, que, se cerca de cem casos de antraz contraído por inalação não estivessem sendo detectados, haveria 20 mil casos de antraz cutâneo. Mesmo que 90% desses casos estivessem passando desapercebidos, ainda assim haveria 2 mil casos de antraz cutâneo. Mas a verdade é que não há registro nem de vinte. Em busca de algum padrão para explicar o surto atual de casos, o dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, diz que chama atenção o fato de quatro das cinco vítimas terem mais de 50 anos. "Quanto mais velha uma pessoa é, maior a quantidade de sujeira que ela coleta nos pulmões", afirmou ele. Lundgren pode ter contraído a doença por contato indireto com uma pessoa que, sem saber, carregava esporos de antraz na roupa depois de ter entrado em contato com as cartas contaminadas em New Jersey, Washington, Flórida ou Nova York. O antraz poderia estar no casaco de uma pessoa que visitou Lundgren. Um abraço teria sido suficiente para soltar os esporos. "Aos 94 anos, ela não precisava inalar 8 mil esporos para contrair a doença, como as pessoas mais jovens - mil esporos, talvez, tenham sido suficientes", disse Hugh-Jones. O mesmo tipo de cenário de contaminação está sendo considerado no caso de Nguyen - até agora, sem resultado.

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