Mistérios na rota do náufrago

Família de salvadorenho que diz ter passado 13 meses à deriva em barco de pesca no Pacífico perdeu contato com ele em 2006

O Estado de S. Paulo,

04 de fevereiro de 2014 | 23h20

Imagens de José Salvador Alvarenga divulgada pela família (esq.) e do náufrago resgatado nas Ilhas Marshall. (Fotos: AP e Esteban Félix/AP)

SAN SALVADOR - Permeada por inconsistências, a história do pescador José Salvador Alvarenga apareceu como um "duplo milagre" para a sua família, em El Salvador: além de supostamente ter sobrevivido 13 meses à deriva em um pequeno barco no Pacífico, ele era dado como morto pelos pais, com os quais perdera contato havia oito anos.

Alvarenga foi encontrado esta semana nas Ilhas Marshall, na Oceania, dizendo ter saído do México. Com barba espessa, cabelos compridos e sobrepeso, o pescador afirma ter vivido à base de ração, carne e sangue de pássaros e de tartarugas, além de peixes pegos com as próprias mãos desde de dezembro de 2012.

Autoridades navais mexicanas disseram que, em novembro de 2012, desapareceu um pesqueiro com dois tripulantes, identificados como Cirilo Vargas e Ezequiel Córdoba. Houve buscas por duas semanas. Os pais de Alvarenga afirmaram que ele era conhecido em sua cidade natal como "Cirilo". O próprio pescador disse que viajava com um "Ezequiel" - ele não soube identificar o sobrenome do suposto colega - que teria morrido um mês depois de o barco ter ficado à deriva.

Alvarenga alega ter jogado o corpo do companheiro no mar. Apesar de supostamente ter passado 13 meses sob o sol abrasivo do Pacífico, o pescador não tinha queimaduras na pele e aparentava sobrepeso. Entre os amigos pescadores de El Salvador, ele também era conhecido como "La Chancha" e "Porcão".

"O mar era sua paixão", afirmou na terça-feira, 4, a jornalistas José Ricardo Orellana, seu pai, que é proprietário de um pequeno armazém e de um moinho na cidade salvadorenha de Garita Palmera. "Não tivemos notícias dele por oito anos e pensávamos que estava morto", disse a mãe, María Julia, de 59 anos. "É esse o milagre, glória a Deus." Ela caiu em lágrimas ao falar com seu filho pelo telefone - ele continua nas Ilhas Marshall. Alvarenga disse que estava bem, hospedado em um hotel, onde recebe alimentos e medicamentos.

A filha do pescador, Fátima, de 14 anos, disse que não se lembra do pai, que deixou El Salvador rumo ao México quando ela tinha 1 ano. "Estou tão feliz em saber que ele está vivo. Vou poder vê-lo."

Lacunas. Não há explicação para as diferenças de datas e nomes entre a versão do pescador e a do governo mexicano. José Manuel Aragón, porta-voz da autoridade marítima do Estado de Chiapas, onde o barco "sumiu", disse desconfiar de que se trata de uma armação. "Foi provavelmente algo planejado, uma coisa de que não tínhamos conhecimento. Nossa missão era conduzir apenas as operações de resgate." A hipótese de envolvimento de Alvarenga com tráfico de drogas para os EUA foi levantada, mas o uso de um barco pequeno, de 7,3 metros, não é comum na atividade.

Villermino Rodríguez, um jovem que seria o proprietário do barco em que os pescadores viajavam, disse que Alvarenga é um homem fechado. Ele alegou ter avisado os dois pescadores para não se lançarem ao mar em meio ao mau tempo. Nas Ilhas Marshall, Alvarenga disse ter trabalhado para Rodríguez, que também levantou dúvidas sobre a história do "náufrago". "Você pode imaginar um monte de coisas, mas isso quem deve explicar é ele (Alvarenga)", afirmou o proprietário do barco.

O embaixador dos EUA nas Ilhas Marshall, Tom Armbruster, conversou com o pescador e também se mostrou cético. "Para mim, é difícil imaginar uma pessoa sobrevivendo por 13 meses no mar. Mas também é difícil imaginar como alguém consegue aparecer do nada em Ebon (nas Ilhas Marshall). Certamente esse sujeito passou por muita coisa e esteve no mar por algum tempo", afirmou o diplomata americano. / AP

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