Ivan Fernandez/AP
Ivan Fernandez/AP

Mito argentino tenta justificar derrota de Scioli nas eleições presidenciais

A chamada ‘maldição bonaerense’ seria o motivo pelo qual há mais de um século nenhum governante da Província de Buenos Aires consegue chegar à Casa Rosada

O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 08h35

BUENOS AIRES - O governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, perdeu a eleição presidencial na Argentina no domingo, uma derrota que consolida o mito da "maldição bonaerense": há um século e meio, nenhum governante da província mais rica e populosa do país conseguiu chegar à Casa Rosada por meio das urnas.

Bartolomeu Mitre foi governador da província de Buenos Aires entre 1860 e 1862, quando, após ganhar uma guerra civil, foi eleito presidente da Argentina. Em 1882, quis voltar à presidência, mas o desgaste de seu espaço político significou um golpe mortal para sua candidatura.

Desde então, diversos governadores da província alimentaram em vão o sonho presidencial. Alguns apenas conseguiram manifestar seu desejo de dirigir o país, outros chegaram a formalizar sua candidatura e poucos concorreram em eleições. Suas vontades foram prejudicadas por rixas partidárias ou derrotas em pleitos.

A "maldição bonaerense" foi inaugurada por Dardo Rocha, governador entre 1881 e 1884 e que pretendia suceder o presidente Julio Argentino Roca, mas este ungiu como candidato seu cunhado, Miguel Juárez Celman.

O malefício se baseia em uma lenda urbana ligada à fundação, em 1882, de La Plata, capital bonaerense situada a cerca de 60 km da capital do país. Aparentemente, vários convidados do evento, enviados pelo presidente Roca, passaram mal na festa e em seu retorno a Buenos Aires de trem. Para se vingarem, recorreram a uma bruxa de Tolosa, cidade vizinha a La Plata e agora célebre por ser a terra natal da presidente Cristina Kirchner.

Segundo a lenda, a "bruxa de Tolosa" profanou o monumento de fundação de La Plata, e em seu ritual lançou uma maldição para que nem Roca nem nenhum outro governador da província de Buenos Aires chegasse à presidência.

Lenda urbana ou não, Roca abriu o caminho da frustração política para os governadores bonaerenses: Marcelino Ugarte, Martín Fresco, Rodolfo Moreno, Domingo Mercante, Oscar Allende, entre outros. Nenhum deles deu o salto à Casa Rosada.

Peronismo. Desde o retorno da Argentina à democracia, em 1983, os casos se circunscrevem ao peronismo.

Antonio Cafiero, governador entre 1987 e 1991, desejava suceder o radical Raúl Alfonsín em 1989, mas Carlos Menem ganhou na eleição interna peronista.

Menem foi eleito presidente, e seu vice, Eduardo Duhalde, renunciou em 1991 para se tornar governador da província de Buenos Aires.

"Eu não temo essa maldição", havia dito Duhalde em entrevista em 1996, um ano depois de seus sonhos presidencialistas serem congelados pela reeleição de Menem.

Um ano depois, em um ato eleitoral, Duhalde já não se mostrava tão incrédulo: "Peço aos bonaerenses que me ajudem a romper o que é um malefício histórico, pelo qual nenhum governador da província de Buenos Aires chegou à presidência".

Na noite de São João de 1999, Manuel Salazar, um parapsicólogo, fez um ritual de "destravamento" no monumento de fundação de La Plata e lançou um conjuro para livrar Duhalde da maldição dos governadores.

"O desencantamento alcançará todas as pessoas de boa vontade que vivem na cidade", prometeu então o que passou a ser conhecido como "o bruxo de Duhalde".

Em outubro de 1999, Duhalde concorreu efetivamente à presidência, mas a eleição foi vencida por Fernando de la Rúa.

No final, Duhalde tornou-se presidente, mas não pelas urnas. Após a renúncia de De la Rúa, se sucederam vários líderes provisórios proclamados pelo parlamento. O último deles, Duhalde, governou entre janeiro de 2002 e maio de 2003.

Daniel Scioli, que governa a província desde o final de 2007, sonhava em disputar a presidência em 2011, mas Cristina Kirchner tinha prioridade e concorreu à reeleição.

Desta vez, chegou a ser candidato, mas não ganhou. "A bruxa de Tolosa conseguiu outra vez", dirão os inclinados ao esoterismo, sem entrar em análises políticas. /EFE

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