Mitos e verdades sobre o regime

A Coreia do Norte pode mais perigosa do que dizem, mas isso não quer dizer que Kim Jong-un seja um louco

O Estado de S.Paulo

30 de março de 2013 | 02h04

"A Coreia do Norte não é tão perigosa assim."

Errado. Não há ameaça de guerra na Península Coreana porque os Estados Unidos e a Coreia do Sul dissuadiram o regime do Norte por mais de seis décadas. E as provocações ocasionais de Pyongyang - cheias de som e fúria - geralmente terminam estourando no seu próprio rosto. Então, por que se preocupar? Por duas razões. Primeiro, a Coreia do Norte tem uma propensão para testar novos presidentes sul-coreanos. Um novo tomou posse em fevereiro, e desde 1992, o Norte recebeu os cinco novos líderes do Sul com perturbações da paz. Lançamentos de mísseis, incursões de submarinos e choques navais foram recebidos por presidentes sul-coreanos mais com paciência que indignação.

A diferença desta vez é que a Coreia do Norte cruzou um importante limiar tecnológico, em dezembro, quando colocou um satélite em órbita. Embora o satélite tenha funcionado mal, o Norte conseguiu colocar a carga em órbita com uma tecnologia de lançamento de míssil balístico claramente destinada a atingir os EUA.

Esse desenvolvimento parece validar a afirmação do ex-secretário de Defesa americano Robert Gates, em janeiro de 2011, de que o regime estava a apenas cinco anos de obter um míssil capaz de ameaçar os EUA. Para piorar, o Norte fez um terceiro teste nuclear em fevereiro que parece ter sido mais bem sucedido que os anteriores.

Mas há outro ponto geralmente desconsiderado: a Coreia do Norte pode ameaçar toda a Coreia do Sul e partes do Japão com seus mísseis e forças militares convencionais. O Norte pode disparar 500 mil cargas de artilharia sobre Seul na primeira hora de um conflito. Durante 60 anos, a estabilidade foi mantida pelas alianças dos EUA com o Sul e o Japão, que deixaram claro à liderança norte-coreana que se ela atacasse, perderia não só a guerra, mas seu próprio país. O temor agora é que o novo líder norte-coreano, jovem e inexperiente, possa não aceitar a mesma lógica.

"Kim Jong-un não é louco."

Não apostem nisso. Era fácil zombar de seu pai, Kim Jong-il, com seu penteado extravagante, suas habilidades sociais canhestras e aversão a eventos públicos. Kim Jong-un tem uma mulher jovem e bonita, gosta de aparecer em público e fazer discursos, assiste a jogos de basquete, e visita parques de diversão. Boa parte de seu comportamento pode ser teatro político para convencer o povo de que o jovem general está confortável no poder, mas também contrasta no estilo de governar com seu pai. Embora Kim Jong-un seja inexperiente, ele já detém o poder há um ano e parece ter o apoio dos atores mais poderosos em Pyongyang.

Mais importante do que perguntar se Kim Jong-un é louco, é determinar se ele é cauteloso ou afoito. Qualquer grande mudança na política externa norte-coreana envolverá riscos consideráveis. Se Kim for além do teatro político dos últimos 60 anos e de fato arriscar um grande ataque militar contra o Sul ou mesmo os EUA, estará colocando seu pescoço, e o de seu país, em risco.

Kim enfrentará outros tantos riscos se reformar significativamente a política doméstica, econômica ou social. Mesmo em uma ditadura totalitária, há diferentes facções, coalizões e interesses que serão feridos por qualquer mudança. Reformas econômicas podem ajudar o país, mas podem criar o caos nos mercados e enfraquecer interesses poderosos dentro da vasta burocracia.

Um Kim aventureiro pode ou não ser bom para a Coreia do Norte e suas relações com o mundo. Por outro lado, um Kim cauteloso, que mantém o status quo, significaria que a política norte-coreana continuará confusa, sem mudanças reais no frustrante e perigoso jogo de risco calculado de muitas décadas.

"A Coreia do Norte é pobre, pois as sanções estão funcionando."

Nem de longe. A Coreia do Norte é pobre por causa de uma política econômica obsoleta e do isolamento autoimposto do mundo. A mais recente rodada de sanções da ONU e dos EUA, aplicadas em março, atinge somente a elite.

A culpa pode ser atribuída a diversas decisões ruins que a Coreia do Norte tomou na gestão de sua economia. Logo após a Guerra da Coreia, o avô de Kim Jong-un, Kim Il-sung, concentrou-se no desenvolvimento da indústria pesada e das forças militares à custa da autossuficiência em agricultura. Num país com apenas 20% das terras cultiváveis, foi um erro. Depois, em vez de buscar tecnologias e inovações como a Revolução Verde que ajudou nações como a Índia a obter ganhos enormes na produtividade agrícola nos anos 60 e 70, a Coreia do Norte optou pelo aumento das horas de trabalho e do zelo revolucionário. Quando chineses e soviéticos deixaram de dar ajuda ao fim da Guerra Fria, Pyongyang passou a depender da ajuda humanitária em vez de tentar corrigir sua economia.

"A China não permitirá o colapso da Coreia do Norte".

Por enquanto. Manter uma relação estreita com Pyongyang pode ser muito frustrante para Pequim, e o apoio chinês à mais recente rodada de sanções da ONU foi o mesmo que uma rejeição pública. Os líderes chineses têm pressionado por reformas econômicas, mas Pyongyang tem ignorado os conselhos chineses. Apesar de haver um debate público cada vez mais estridente dentro da China sobre o que fazer com esse vizinho indócil, a liderança chinesa até aqui concluiu que instigar a Coreia do Norte é melhor do que retirar seu apoio.

"Concessões suficientes podem fazer a Coreia do Norte desistir para sempre de armas nucleares".

Se ao menos fosse assim fácil. Desde Ronald Reagan, sucessivos governos americanos defenderam que se insegurança e relativa privação impulsionam a obsessão da Coreia do Norte por armas nucleares, então a resposta seria garantir uma península pacífica e fornecer dinheiro, alimentos e reconhecimento político para o regime. De 1989 a 2010, presidentes americanos deram garantias escritas e verbais de intenções não hostis e uma disposição de entendimento por 33 vezes. Pyongyang reconheceu, rejeitou e ignorou essas garantias.

Assinar um tratado de paz antes de desnuclearizar seria reconhecer e legitimar o status nuclear de Pyongyang, deixando poucos incentivos para eliminar essas armas. Os norte-coreanos já disseram que um tratado de paz é apenas um pedaço de papel; por que eles desistiriam de seu amado programa nuclear por isso? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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