Mitt Romney, o candidato da amnésia

Análise: Paul Krugman / NYT

É PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA, COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h03

Será que Mitt Romney pensa que somos burros? Se você estiver acompanhando sua campanha, provavelmente já se fez essa pergunta. Mas a pergunta ressurgiu com força na semana passada quando Romney tentou fazer de uma fábrica de placas de gesso fechada em Ohio um símbolo do fracasso econômico do governo de Barack Obama.

Primeiro, muitos observaram um ponto que Romney não mencionou: o presidente era George W. Bush e não Obama quando aquela fábrica fechou. Será que a campanha de Romney espera que os americanos culpem Obama pelo fracasso de seu antecessor? Sim, espera. Romney fala constantemente das perdas de empregos durante o governo Obama. Mas toda a perda líquida de empregos ocorreu no início de 2009, antes de as políticas do novo governo entrarem em vigor. O discurso em Ohio foi uma ilustração perfeita da maneira como Romney conta com a amnésia para que os eleitores não se lembrem que Obama herdou uma economia já em queda livre.

Seu argumento sobre o fechamento foi que, apesar de Obama ter herdado uma economia com problemas, ele já devia ter dado um jeito nela. Essa fábrica ainda está fechada, disse um consultor de Romney, em razão da incapacidade das políticas de Obama de "realmente pôr essa economia em movimento de novo". O fato é que essa fábrica provavelmente ainda estaria fechada mesmo que a economia melhorasse - as placas de gesso são usadas principalmente em casas novas e, apesar de a economia estar se recuperando, a bolha imobiliária da era Bush não permitiu a retomada do setor.

Além da escolha fraca de Romney na ocasião, imagino que acusar Obama de não fazer o suficiente para a recuperação é um argumento melhor do que culpar o presidente pelos efeitos das políticas de Bush. Mas não é muito melhor, pois Romney defende uma volta às mesmíssimas políticas de Bush. E espera que o eleitor não se lembre de como aquelas políticas deram errado. Isso porque a era Bush não terminou simplesmente em catástrofe; começou mal também. Sim, o histórico de empregos de Obama tem sido decepcionante - mas melhor que o de Bush no mesmo período.

Outro aspecto da campanha da amnésia é Romney querer que se atribua todos os problemas de política econômica desde 2008 a Obama. Mesmo com as limitações políticas, Obama fez menos do que poderia e deveria, em 2008, especialmente sobre a habitação. E Washington sofreu repetidamente de complacência - usando alguns meses de boas notícias como desculpa para repousar em vez de impor mais ação. Há, portanto, uma crítica válida ao manejo da economia pelo governo. Mas não é essa a crítica que Romney está fazendo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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